A VIDA POR UM FIO
Capitalismo Devastador e Resistências Libertadoras
Soleni Biscouto Fressato, Nicolas Oblin, Carlos Alberto Rios Gordillo,
Patrick Vassort, Jorge Nóvoa (organizadores)
DESCRIÇÃO CURTA
A Vida Por um Fio: Capitalismo Devastador e Resistências Libertadoras aborda a crise do capitalismo no contexto dos conflitos contemporâneos, suas consequências nocivas para a nossa sociedade e os esforços de resistência social e superação da crise.
SINOPSE
O livro analisa a crise do capitalismo global após a pandemia de covid-19 e as guerras da Ucrânia e Gaza. Os autores destacam a fragilidade da vida humana e os riscos que as mudanças climáticas e os conflitos geopolíticos (como por exemplo, a destruição da Faixa de Gaza por Israel e todas as dezenas de guerras e conflitos militares ocorrendo atualmente) trazem não só para o Ocidente, mas para todo o planeta. O poder destrutivo e disruptivo do capitalismo, em especial em sua versão neoliberal, que não se importa nem com o bem-estar das sociedades nem com o meio ambiente, se destaca no contexto do confronto aberto entre as superpotências que não escondem mais a luta por recursos naturais e dominação tecnológica. Em contraponto, o livro mostra os movimentos de resistência de comunidades indígenas e grupos sociais, como o zapatismo no México e os Gilets Jaunes (os Coletes Amarelos) na França, e as propostas alternativas ao capitalismo. Em suma, A Vida Por um Fio: Capitalismo Devastador e Resistências Libertadoras não apenas avalia a destruição causada pelo capitalismo como busca explorar caminhos para uma vida mais digna e sustentável para todos. É um convite à reflexão sobre as formas de organização social e econômica prevalecentes e um chamado à ação pela mudança urgente, diante da intensificação dos problemas ambientais e da escalada da militarização das relações internacionais
QUARTA-CAPA
Desigualdade e precarização do trabalho e das comunidades. Enfraquecimento da sociedade por meio de sua fragmentação incentivada. Destruição de laços sociais e culturais. Financeirização da vida e adoecimento do indivíduo. Destruição do meio-ambiente. A lista de façanhas do modelo econômico que chamamos de “capitalismo” é extensa. A Vida Por um Fio enfatiza os impactos estruturais do capitalismo em nossas vidas, as desigualdades sociais que gera e mantém e os desafios políticos que se impõem para que possamos resistir aos projetos de poder daqueles grupos que controlam o capital e os meios de produção, propondo uma reflexão crítica sobre alternativas sustentáveis e justas capazes de nos tirar de uma trajetória que ruma inevitavelmente para o abismo.
ORELHA
Desde sua criação, há mais de quinhentos anos, o capitalismo, em suas várias fases e formas, colocou em prática a colonização e a desapropriação de povos, usando armas de fogo para subjugá-los e dominá-los e organizando o extermínio dos mais resistentes. Os povos da África subsaariana e os povos indígenas das “terras pré-colombianas” pagaram um preço altíssimo por sua “submissão forçada” ao processo de formação do capitalismo global. Um setor da economia, o de armamentos, surgiu com a revolução comercial do século XVI e continuou a se desenvolver. Hoje, junto com o capital financeiro (capital bancário, comercial, industrial e de serviços), ele se tornou um setor dominante, sem o qual a economia capitalista não poderia funcionar.
Sob uma perspectiva histórica, aquilo que a humanidade passou a considerar como progresso científico e tecnológico e “conforto urbano”, promovidos pelo capitalismo, veio acompanhado de intensa destruição. O “progresso” na destruição é a unidade contraditória da totalidade social global que é o capitalismo, e foi e continua sendo sua força motriz. Entretanto, no decorrer de sua evolução, suas dimensões destrutivas estão se afirmando e se acelerando como nunca. Ele sobrevive às custas do desaparecimento de muitas formas de vida, seja vegetal ou animal, inclusive a humana. Portanto, o problema que nos preocupa não deixa de ser uma questão pertinente à toda humanidade e, individualmente e existencialmente, a cada um dos autores deste livro – na medida em que somos capazes de respondê-la como pesquisadores das ciências sociais – a saber: por quanto tempo o capitalismo resistirá às suas próprias contradições e, portanto, a si mesmo? Essa questão deve ser completada por outra, ainda mais pertinente, qual seja: por quanto tempo e a custo de quais sacrifícios, não apenas em termos humanos, mas também de forma mais global, em termos de vida e de seres vivos, a humanidade suportará viver sob o capitalismo, porque é disso que se trata em primeira e em última análise.
AUTORES
Soleni Biscouto Fressato (org.)
Historiadora e socióloga. Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia. Pesquisadora de O Olho da História, Laboratório de Reflexão Transdisciplinar Sobre a Crise da Modernidade (https://oolhodahistoria.ufba.br) e de Indícios, Rede Internacional de Investigação em Humanidades e Ciências Sociais (https://indicios.azc.uam.mx). Tradutora voluntária entre as línguas portuguesa e francesa de Selvagem, Ciclo de Estudos Sobre a Vida (https://selvagemciclo.com.br). Autora, dentre outros, de Novelas, Espelho Mágico da Vida: Quando a Realidade se Confunde Com o Espetáculo (São Paulo: Perspectiva, 2024). Organizadora, juntamente com Jorge Nóvoa, de Soou o Alarme.
Jorge Nóvoa (org.)
Professor Titular aposentado do Departamento de Sociologia da UFBA. Professor Convidado da Universidade de Paris III – Sorbonne. Autor e organizador de vários livros, e com Soleni Biscouto Fressato de Soou o Alarme: A Crise do Capitalismo Para Além da Pandemia (Perspectiva, 2020).
Nicolas Oblin (org.)
Professor e instrutor do Instituto Nacional Superior do Professorado e da Educação – INSPE, em Nantes, França. Doutor em Sociologia pela Universidade Paul Valéry Montpellier III. Cofundador e membro do coletivo Illusio (editor da revista homônima e de trabalhos científicos nas áreas de ciências humanas e sociais). Seu trabalho se concentra em política, educação e corpo. Autor de: Jouer le monde: Critique de l'assimilation du sport au jeu (Jogando com o Mundo: Crítica da Assimilação do Esporte como Diversão, em coautoria com Ronan David, Lormont: Le Bord de l'eau, 2017); Pourquoi nier le mal sportif? (Por Que Negar o Mal do Esporte?, Lormont: Le Bord de l'eau, 2015); Sport et capitalisme de l'esprit (Esporte e Capitalismo do Espírito, Bellecombe-en-Bauges: Le Croquant, 2009); La Crise de l'université française: Traité critique contre une politique de l'anéantissement (A Crise da Universidade Francesa: Tratado Crítico Contra uma Política de Aniquilação, em coautoria com Patrick Vassort, Paris: L'Harmattan, 2005) e Sport et esthétisme nazis (Esporte e Estética Nazista, Paris: L'Harmattan, 2002).
Carlos Alberto Rios Gordillo (org.)
Historiador e chefe do Departamento de Sociologia da Universidade Autônoma Metropolitana, Azcapotzalco, México. Cofundador do Centro de Estudos, Informações e Documentação “Immanuel Wallerstein”, na Universidade da Terra, em Chiapas e é cofundador da Indicios – Rede Internacional de Investigação em Humanidades e Ciências Sociais (https://indicios.azc.uam.mx). Suas áreas de pesquisa são historiografia e história do tempo presente, pensamento crítico e movimentos antissistêmicos. Autor de Las Formas de la Comparación: Marc Bloch y las Ciencias Humanas – Ensayo de Morfología e Historia (Ciudad de México: UAM/Siglo XXI/Anthropos, 2016); e El Cielo de la Historia: Una Constelación (Rosario: Prohistoria, 2023.)
Patrick Vassort (org.)
Sociólogo e cientista político, professor sênior (HDR – habilitado para orientar doutorandos) da Universidade de Caen, na Normandia, e membro do Cerrev (Centro de Pesquisa de Risco e Vulnerabilidade). Dirige o Programa Internacional de Pesquisa em Teoria Crítica (MRSH/CNRS) na Universidade de Caen. Cofundador e membro do coletivo Illusio (editor da revista homônima e de vários trabalhos científicos em ciências humanas e sociais – França), membro do coletivo Indicios (Rede Internacional de Pesquisa em Ciências Sociais e Humanas – México). Seu trabalho se concentra na política (teoria e prática), do corpo e do esporte, tendo publicado vários livros e participado de inúmeros projetos coletivos nesse domínio.
Jérôme Baschet
Historiador. Dedicou-se ao estudo da Idade Média europeia, bem como às questões historiográficas. Por muitos anos, foi professor e pesquisador na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris. Desde 1997, vive entre Paris e San Cristóbal de Las Casas (México), onde leciona na Universidade Autônoma de Chiapas e participa dos seminários da Universidade da Terra. É autor de cerca de quinze livros, vários dos quais foram publicados no Brasil: A Civilização Feudal: Do Ano Mil à Colonização da América (Rio de Janeiro: Globo, 2006; reeditado pela Petrópolis: Vozes, 2023), Corpos e Almas: Uma História da Pessoa na Idade Média (São Leopoldo: Unisinos, 2019), A Experiência Zapatista: Rebeldia, Resistência, Autonomia (São Paulo: N-1, 2021) e Adeus ao Capitalismo: Autonomia, Sociedade do Bem Viver e Multiplicidade dos Mundos (Cotia: Autonomia Literária, 2021).
Claude Serfati
Economista, pesquisador associado ao Instituto de Pesquisa Econômica e Social – IRES e ao Centro de Estudos sobre a Mundialização, os Conflitos, os Territórios e as Vulnerabilidades – CEMOTEV, da Universidade Versailles-Saint-Quentin. É igualmente membro do Conselho Científico da Associação Pela Tributação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos – ATTAC.
Domingo Marrero Urbín
Professor aposentado de Geografia e História do Ensino Médio e bacharelado. Licenciado em História pela ULL (Universidade de La Laguna) e com diploma de Estudos Avançados para o doutorado, reconhecido pelo Departamento de Ciências Históricas da ULPGC (Universidade de Las Palmas de Gran Canaria). É diretor do blog Historias del Presente: Historia Para Todos.
Fabien Lebrun
Membro da revista Illusio, doutor em Sociologia e em Informação e Comunicação. Professor da Universidade de Nantes e autor de On achève bien les enfants: Écrans et barbarie numérique (Estamos Destruindo Bem as Crianças: Telas e Barbárie Digital) e de Barbarie numérique: Une autre histoire du monde connecté (Barbárie Digital: Outra História do Mundo Conectado), adaptado de sua segunda tese. Seus temas principais de pesquisa são o impacto ecológico e geopolítico das novas tecnologias e as questões educacionais e éticas que envolvem a tecnologia digital.
Bruno Cezar Pereira Malheiro
Possui Graduação em Geografia pela Universidade Federal do Pará, Mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos – NAEA-UFPA, e doutorado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense – UFF. É Professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará – Unifesspa, e do Programa de Pós-Graduação em Geografia – PPGG, da Universidade do Estado do Pará – Uepa. Autor de Geografias do Bolsonarismo: Entre a Expansão das Commodities, do Negacionismo e da Fé Evangélica no Brasil, coautor de Horizontes Amazônicos: Para Repensar o Brasil e o Mundo e roteirista do filme Pisar Suavemente na Terra (Belém: Amazônia Latitude, 2022).
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Graduação em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1972), mestrado em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1985) e doutorado em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1998). Professor Visitante do Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas – PPGICH-UFSC, professor por tempo determinado – Universidad Nacional de Córdoba, Argentina, assessoria em pesquisa e extensão, promovida pela Comissão Pastoral da Terra – CPT, em parceria com a Universidade Federal Fluminense – UFF e professor Titular da Universidade Federal Fluminense. Foi agraciado com: Prêmio Chico Mendes na Categoria de Ciência e Tecnologia pelo Ministério do Meio Ambiente, em 2004; Prêmio Casas de las Américas em Literatura Brasileira, em 2008, em Havana, Cuba, por seu livro A Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006); Prêmio Geógrafo de Destaque – Manoel Coreia de Andrade, outorgado pela Anpege, em 2017; Prêmio Milton Santos de Mérito Geográfico, outorgado pelo XVII Encontro de Geógrafos da América Latina, em 2019, em Quito, Equador.
Fernando Michelotti
Possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade de São Paulo (1993), mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos – Naea, da Universidade Federal do Pará (2001), doutorado sanduíche em Planejamento Urbano e Regional no IPPUR/UFRJ (2019), realizado no Observatório Latino-Americano de Geopolítica do IIEc/Unam – México (2017). É professor do curso de Agronomia da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará – Unifesspa, do Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Desenvolvimento Regional e Urbano na Amazônia – PPGPAM-UNIFESSPA, e coautor de Horizontes Amazônicos: Para Repensar o Brasil e o Mundo.
Raúl Zibechi
Escritor, jornalista e educador popular que trabalha com movimentos sociais na América Latina. Nascido em Montevidéu (Uruguai), passou trinta anos trabalhando diretamente com organizações sociais, em quase todas as regiões do país. É integrante da equipe do portal Desinformémonos. Escreve para La Jornada (México), Gara (País Basco) e vários websites de esquerda. Ganhou o Prêmio de Jornalismo José Martí, atribuído pela agência de notícias cubana Prensa Latina. Doutor honoris causa pela Universidad Mayor de San Andrés (La Paz, Bolívia).
PERSPECTIVAS
A coleção Perspectivas, lançada em 1995, oferece ao público brasileiro uma série que pretende reunir textos importantes, e extensos na abrangência do assunto tratado, nas áreas teatral (O Cotidiano de uma Lenda, de Cristiane Takeda), de artes plásticas (Fios Soltos, de Paula Braga), biográfica (Eis Antonin Artaud, de Florence de Mèredieu; Mikhail Bakhtin, de Katerina Clark; Todos os Corpos de Pasolini, de Luiz Nazario; e Diderot de Arthur Wilson), histórica (A Alemanha Nazista e os Judeus, de Saul Friedländer), antropológica (Afrografias da Memória, de Leda Martins) e literária (Pessoa e Personagem, de Michel Zéraffa).
DA CAPA
Imagem da capa: Mort Dollar, litogravura de Roland Cros.
PÚBLICO-ALVO
Público amplo, sem restrições.
PALAVRAS-CHAVE
Capitalismo, crise, política, devastação, resitência, redes sociais, ecologia, democracia, sociologia, psicologia social, Brasil, mudança climática.
TRECHOS DO LIVRO
O capital é uma relação social que conseguiu se estabelecer no contexto da mundialização sob a égide do capital financeiro, em uma gênese que remonta, pelo menos, ao século XVI. Hoje, o capital financeiro que unifica o capital produtivo em conglomerados transnacionais (indústrias, agroindústrias e indústrias de mineração), mais capital de finanças (bancos, bolsas de valores etc.) e capital de comércio e serviços se fundem e se recompõem ao sabor da concorrência e das falências. De fato, são esses conglomerados de diversos capitais que também dão conteúdo ao conceito de "capital financeiro", ao qual também nos referimos como "capital total" ou "último capital".
Por mais de um quarto de século, os territórios rebeldes de Chiapas têm sido o lugar de uma experimentação coletiva que, sob o nome de autonomia, busca desenvolver formas de vida o mais distante possível da dominação das normas capitalistas e das formas de despossessão induzidas pela representação estatal. O que a luta zapatista conseguiu emergir, não sem grandes dificuldades e limitações, pode ser considerado uma das mais notáveis utopias reais observadas atualmente em escala planetária, tanto em termos de sua extensão geográfica, de sua longevidade, como de sua radicalidade. Caracteriza-se, em particular, por uma auto-organização da vida coletiva, baseada na revitalização e na transformação das estruturas comunitárias inscritas na história dos povos indígenas, bem como pelo estabelecimento de um autogoverno popular, totalmente dissociado das instituições estatais mexicanas e implantado em uma escala tripla (aldeias, municípios autônomos e coordenação regional por “Conselhos de Bom Governo”); nesse quadro, seus próprios órgãos exercem uma justiça de mediação, enquanto experimentam a invenção de um sistema de saúde e um sistema de educação financiado por trocas de serviços e formas de trabalho coletivo.
Tomar o poder ou mudar o mundo? A pergunta ainda mantém toda a sua carga, condensando, de acordo com Wallerstein, três debates ou dilemas essenciais dos movimentos antissistêmicos: primeiro, o papel que os Estados podem desempenhar no processo de construção de um tipo diferente de sistema histórico; segundo, a escolha, entre movimentos sociais e movimentos nacionalistas, sobre qual é o ator histórico prioritário (o proletariado, as minorias, as mulheres, as pessoas da diversidade sexual?) na luta por uma ordem histórica mais justa; terceiro, entre aqueles que defendem o caminho vertical (em que os grupos subalternos devem subordinar suas prioridades às demandas daquele ator histórico principal) e aqueles que defendem o caminho horizontal (em que as demandas de todos os grupos oprimidos são igualmente importantes e não devem ser adiadas). Ou seja, no primeiro estão aqueles que evitam o poder do Estado e aqueles que insistem em conquistá-lo; no segundo, aqueles que reivindicam a prioridade da luta de classes e aqueles que insistem na prioridade da luta nacionalista entre o Norte Global e o Sul Global; no terceiro, os “verticalistas” que insistem em uma única ação política conjunta e os “horizontalistas” que procuram não marginalizar os grupos mais negligenciados.
O futuro da humanidade foi assim profetizado: a “vergonha prometeica” – a certeza de que a máquina agora é superior ao ser humano e só pode permitir que ele melhore – identificada por Anders, agora invadiu o modo de pensar e quase a totalidade das atividades humanas.
A organização voluntária da desumanização só pode ocorrer dentro de um quadro mórbido, mortífero e tanatofílico de uma sociedade cujas pulsões de controle e destruição se afirmarão cada vez mais fortemente, fazendo do Leviatã e do Beemot as figuras dialéticas e complementares de nosso futuro totalitário.
Atualmente, a guerra na Ucrânia e a escalada de tensões com a China (executadas e divulgadas com uma desenvoltura surpreendente) confirmam com a mesma força. A articulação de alianças militares antagônicas, muitos anos antes do início da guerra, revela o mesmo grau de planificação. E os períodos de corrida armamentista, que antecederam os grandes conflitos do século XX, são mais uma prova. O aumento das despesas militares das grandes potências a partir de 2015, acentuado pela guerra na Ucrânia e pelas tensões com a China, está anunciando um novo confronto armado mundial. Em terceiro lugar, o desenvolvimento tecnológico capitalista criou armas capazes de destruir toda a humanidade. Durante a Guerra Fria, essa possibilidade desempenhou um papel na dissuasão de uma guerra aberta entre as duas superpotências e os seus respectivos aliados. E está atualmente em curso no conflito da Ucrânia e na “ucranização” de Taiwan pelos EUA: a América do Norte já não está a salvo de um hipotético ataque inimigo de grande capacidade destrutiva. Como contrapartida, essa aceleração do desenvolvimento tecnológico está, também, encurtando os períodos de obsolescência de muitos sistemas de armas, aumentando o volume dos arsenais que cada complexo militar-industrial deve rentabilizar com mais guerras, e a da Ucrânia, mais uma vez, é um bom exemplo. Ao mesmo tempo, a necessidade crescente de atualizar os arsenais está consumindo investimentos cada vez maiores, aumentando o endividamento público, a financeirização e o risco de um colapso financeiro ou de todo o sistema. Algo que, em quarto lugar, está sendo reforçado pela queda da taxa média de lucro, alimentando a luta pela supremacia.
Em Coluezi, capital de Lualaba, a ativista Nathalie Kangaji está lutando contra a Glencore, que extrai cobalto, alertando que “nossos telefones celulares e laptops têm o preço do deslocamento de populações, da poluição do meio ambiente e da destruição da saúde. [...] Podemos consumir de forma diferente. É indispensável trocar seu celular todo mês ou todo ano?” Em 2021, uma ONG acusou a Somika de ameaçar a vida da população de Catanga (província da qual Coluezi fazia parte), depois de implantar sua unidade acima do lençol freático de Kimilolo, a montante de uma estação de tratamento de água que abastece grande parte da população de Lubumbashi com água potável. As reclamações da população local incluem que a água do poço tem gosto ácido, causa erupções cutâneas e dizima aves (galinhas e patos). As crianças estão sempre doentes (tosse, dificuldade para enxergar e respirar). Duas mulheres do distrito alertam: “vamos morrer em massa”.
Portanto, precisamos nos conscientizar da finitude da matéria na Terra e nos afastar do paradigma extrativista, em outras palavras, declarar o capitalismo como algo do passado. “Parem a mineração”, “Não minerem, nem aqui, nem em outro lugar” ou “Água é vida”, reivindicações entoadas em todos os continentes, baseiam-se no direito à água, no direito à terra e na preservação dos ecossistemas para as gerações futuras . Pois “é uma mentira deixar os jovens acreditarem que viverão em um mundo virtual e mais conectado: quanto mais eles estiverem cercados por telas, mais resíduos de mineração e água contaminada haverá”
Quanto à ideia de que o “modo de vida ocidental” é intocável porque as pessoas o querem “mais do que qualquer outra coisa”, ela esconde uma mentira: afirmar que ninguém quer mudar seu “modo de vida” é parcialmente falso, porque hoje quase ninguém está realmente em posição de escolher seu modo de vida. O estilo de vida em questão é imposto pela sociedade de consumo à maioria dos habitantes do planeta, porque a economia capitalista hegemônica produziu sociedades de consumo. Na realidade, os estilos de vida podem diferir muito, dentro do mesmo estado-nação, por exemplo, entre populações ricas e pobres, mas a submissão ao consumo de mercadorias é, de qualquer forma, muito forte e impõe restrições intensas. Há uma linha tênue entre afirmar que as pessoas não querem mudar seu modo de vida e reconhecer que são prisioneiras de uma sociedade de consumo de mercadorias, que cresce por conta própria e que está constantemente ampliando sua hegemonia, sem que nenhum Estado soberano pareça capaz ou mesmo disposto a combater essa hegemonia.
A afirmação de que o crescimento do agronegócio e também da mineração depende cada vez menos de terra – sob a alegação de que ambos vêm ampliando a produtividade por área em função da incorporação de tecnologias – pressupõe uma visão ufanista das tecnologias que permite essa intensificação produtiva, desconsiderando seus próprios impactos socioambientais em nome de uma possível redução do desmatamento. Dados da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco, segundo Fernando Ferreira Carneiro et al., mostram claramente os impactos do uso de agrotóxicos, para a intensificação da produção de soja, sobre a saúde dos trabalhadores e das populações locais, indicando que a ruptura metabólica do agronegócio vai muito além da problemática do desmatamento
SUMARIO
Carta aos Leitores
Parte I: Sobre a Natureza do Capitalismo. Do Desastre aos Mundos Possíveis
Um Odor de Pólvora. Os Impasses Capitalistas e a Luta Contra a Destrutividade Ecoetnocapitalicida – Jorge Nóvoa
Repensar a Emancipação a Partir do Desastre do Capitaloceno – Jérôme Baschet
A Grande Bifurcação: Crise Sistêmica e Futuros Possíveis – Carlos Alberto Ríos Gordillo
Da Morbidez Radical e Mortífera do Capitalismo ou a Dialética Negativa das Pulsões – Patrick Vassort
Parte II: Guerras Contemporâneas e Impasses do Capitalismo
Convergência de Temporalidades e Crises Multidimensionais do Capitalismo Contemporâneo – Claude Serfati
O Longo Confronto Pela Hegemonia Capitalista: Rumo ao Capitalicídio Armado? – Domingo Marrero Urbín
O Impasse Digital: Guerras Pela Água e Capitalismo Seco no Século XXI – Fabien Lebrun
A Ilusão das Máquinas ou Como Desfrutamos de Nossa Própria Destruição – Nicolas Oblin
Parte III: Não Há Saída Sem Luta
Experiências Amazônicas: Do Colapso Metabólico do Planeta à Memória Ancestral – Bruno Cezar Pereira Malheiro, Carlos Walter Porto-Gonçalves e Fernando Michelotti
Em Busca de Oxum: Manifesto Pela Vida (Reconectando Com a Ancestralidade) – Soleni Biscouto Fressato
Quebrar o Cerco do Capitalismo: Os Povos em Movimento – Raúl Zibechi
Lista das Imagens
Os Autores
FICHA TÉCNICA
Perspectivas [PE043]
Ciências Sociais
IMPRESSO
brochura
15,5 x 23 cm
328 páginas
ISBN 978-65-5505-283-1
lombada 2,0 cm
peso 423 g
EBOOK
ISBN 978-65-5505-284-8
Lançamento 5 junho de 2026
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