MEMÓRIA MULTIDIRECIONAL
Rememorando o Holocausto na Era da Descolonização
Michael Rothberg
Apresentação: Michel Gherman
DESCRIÇÃO CURTA
Memória Multidirecional defende a tese de que os eventos que marcam a memória dos povos manifestam-se em relação e não são únicos ou unívocos. Demonstra como o Holocausto possibilitou a articulação de outras histórias de vitimização, de um lado, e, de outro, revela o fato pouco conhecido de que sua memória pública emergiu, em parte, graças a eventos do pós-guerra que, à primeira vista, parecem ter pouca relação com ele, como as lutas de descolonização.
SINOPSE
A publicação de MEMÓRIA MULTIDIRECIONAL: REMEMORANDO O HOLOCAUSTO NA ERA DA DESCOLONIZAÇÃO no Brasil amplia o debate sobre memória, racismo, colonialismo e o uso político da memória em contextos diversos. Michael Rothberg reflete sobre a disputa por reconhecimento de memórias de diferentes grupos e como isso revela uma lógica de competição de sofrimento, com potencial de apagamento mútuo.
A apresentação de Michel Gherman destaca diferenças entre Israel e Brasil na abordagem da memória do Holocausto e do racismo. No Brasil, a memória do racismo e da escravidão passou a ser central após as políticas de cotas raciais e debates internacionais. Mudanças políticas e sociais, como a Conferência de Durban (2001), influenciaram a valorização de memórias de vítimas do racismo.
O livro reforça a necessidade de uma abordagem multidirecional para promover solidariedade e diálogo, especialmente em tempos de radicalização política.
QUARTA-CAPA
Memória Multidirecional propõe uma abordagem da memória coletiva contraposta à ideia das “memórias competitivas”, ou seja, a noção de que os diferentes crimes perpetrados contra a humanidade, como a Escravidão africana e o Holocausto judeu, “competem” entre si no debate público, como memória de soma zero, em que ao se atribuir maior valor a um episódio, o outro se desvaloriza proporcionalmente.
Em lugar disso, Michael Rothberg promove diálogos entre essas diferentes experiências de sofrimento e resistência e enfatiza a memória como processo relacional, produtivo e dinâmico, não limitado a comunidades ou nações específicas. Ao analisar as abordagens culturais do Holocausto contra o plano de fundo do descolonialismo, ele destaca a importância de uma visão multidirecional, transnacional e comparativa na memória coletiva.
MICHAEL ROTHBERG
Professor de Literatura Inglesa e Comparada, e detentor da Cátedra Samuel Goetz da Sociedade de 1939 em Estudos do Holocausto da Universidade da Califórnia (UCLA). É coorganizador do Grupo de Trabalho em Estudos da Memória e afiliado ao Centro Alan D. Leve para Estudos Judaicos.
Memória Multidirecional (Stanford University Press, 2009) foi traduzido para francês, polonês e alemão. Sua publicação na Alemanha em 2021 gerou um debate nacional na imprensa convencional sobre a relação entre o Holocausto e outras histórias de violência.
É autor ainda de Traumatic Realism: The Demands of Holocaust Representation (2000) e The Implicated Subject: Beyond Victims and Perpetrators (2019)
Fonte: https://complit.ucla.edu/person/michael-rothberg/
COLEÇÃO A QUESTÃO JUDAICA CONTEMPORÂNEA
Esta coletânea propõe uma contextualização crítica e uma análise situada das múltiplas configurações identitárias, políticas e simbólicas da questão judaica contemporânea, considerando os desdobramentos do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 a Israel e a subsequente resposta militar israelense em Gaza.
ORELHA
Em Memória Multidirecional propus uma forma de contestar aquilo que considerava a maneira dominante de se falar sobre o conflito da memória: uma compreensão da memória como uma competição entre vítimas. Essa “memória competitiva” baseava-se na lógica do jogo de soma zero. Ou seja, tanto acadêmicos quanto cidadãos pareciam presumir que as memórias coletivas se excluíam mutuamente da esfera pública […].
[E]m vez disso, propus uma teoria da memória multidirecional, que argumenta que a memória coletiva opera de forma produtiva e dialógica. Em outras palavras, longe de suplantar outras memórias históricas, a ascensão da memória do Holocausto, na verdade, trouxe maior atenção aos legados traumáticos da escravidão e do colonialismo. Também apresentei o ponto, um tanto menos óbvio, de que a própria memória do Holocausto era resultado de sua interação com esses outros legados traumáticos da escravidão e do colonialismo. […] Em grande parte, minha preocupação residia nas formas de memória compartilhada e solidariedade que emergiam na esteira de diferentes histórias de vitimização, com pessoas explorando a experiência das vítimas de genocídio, racismo ou violência colonial, e estabelecendo conexões com base nessa experiência. [M.R.]
O QUE DIZ O AUTOR
“Em Memória Multidirecional propus uma forma de contestar – e oferecer uma alternativa a – aquilo que considerava a maneira dominante de se falar sobre o conflito da memória no final do século XX e início do século XXI: uma compreensão da memória como uma competição entre vítimas. Essa “memória competitiva”, como a denominei, baseava-se na lógica do jogo de soma zero. Ou seja, tanto acadêmicos quanto cidadãos pareciam presumir que as memórias coletivas se excluíam mutuamente da esfera pública: memória em excesso do Holocausto significava memória insuficiente da escravidão; memória em excesso da escravidão poderia significar memória insuficiente do colonialismo – e vice-versa.
Eu não acreditava que a memória pública e coletiva funcionasse dessa maneira e, em vez disso, propus uma teoria da memória multidirecional, que argumenta que a memória coletiva opera de forma produtiva e dialógica. Em outras palavras, longe de suplantar outras memórias históricas, a ascensão da memória do Holocausto, na verdade, trouxe maior atenção aos legados traumáticos da escravidão e do colonialismo. Também apresentei o ponto, um tanto menos óbvio, de que a própria memória do Holocausto era resultado de sua interação com esses outros legados traumáticos. Demonstrei esses pontos em diversos contextos nacionais, mas o contexto da França durante a Guerra da Independência da Argélia se mostrou particularmente rico para explorar essas dinâmicas multidirecionais.
[...]
Como essa breve descrição sugere, a Memória Multidirecional focava mais nas vítimas do que nos perpetradores. Em grande parte, minha preocupação ali residia nas formas de memória compartilhada e solidariedade que emergiam na esteira de diferentes histórias de vitimização. Assim, por exemplo, pessoas como W.E.B. Du Bois, Charlotte Delbo ou Caryl Phillips estavam principalmente explorando a experiência das vítimas de genocídio, racismo ou violência colonial, e estabelecendo conexões com base nessa experiência.”
PÚBLICO-ALVO
O público alvo do texto é composto principalmente por acadêmicos, pesquisadores e estudantes das áreas de história, estudos culturais, ciências sociais e humanas, com interesse em memória coletiva, trauma, Holocausto e processos de descolonização. Além disso, profissionais envolvidos em políticas de memória, educação e direitos humanos também se beneficiam do conteúdo, especialmente aqueles que buscam compreender e promover abordagens críticas, plurais e transnacionais sobre experiências de sofrimento e resistência. O texto é relevante para quem deseja aprofundar debates sobre justiça histórica, inclusão de vozes marginalizadas e construção de identidades coletivas.
PALAVRAS-CHAVE
Racismo, memória, Holocausto, pós-colonialismo, descolonização, Sul Global
TRECHOS
Apresentação Michel Gherman
Apesar de ter sido publicado há quase duas décadas, acredito que Memória Multidirecional vai além do seu próprio tempo em sua análise e extrapola contextos geográficos específicos; creio que a obra se revela fundamental para compreender o presente em um mundo onde memória, identidade e trauma estão interconectados em uma realidade política e social cada vez mais complexa.
Nesse sentido, sua relevância deriva justamente da articulação entre os estudos da memória – campo interdisciplinar por excelência – e os debates públicos, éticos e políticos que atravessam tanto a academia como a esfera social. O livro, portanto, está justamente nesse interessante cruzamento entre discurso público, debate político e reflexão acadêmica. Com Memória Multidirecional, Rothberg inaugurou um modo de pensar que desloca fronteiras entre história, literatura, teoria crítica e política, interrogando tanto o funcionamento específico da memória do Holocausto quanto a operação da memória como fenômeno cultural e social.
Apesar de suas óbvias diferenças intelectuais e políticas, no entanto, muitos proponentes e críticos da singularidade compartilham o modelo que estou chamando de memória competitiva: quer dizer, ambos os grupos tendem a encarar a memória do Holocausto como se ela fizesse parte de um jogo de soma zero competindo com a memória de outras histórias. Assim, por um lado, os proponentes da singularidade buscam e refutam assiduamente todas as tentativas de comparar o Holocausto ou estabelecer analogias, no intuito de preservar a memória da Schoá de sua diluição ou relativização.
O que está em jogo na memória multidirecional, e de fato na maioria das memórias coletivas de hoje, assemelha-se à memória compartilhada de Margalit. Quando falamos sobre memória coletiva do Holocausto ou sobre memórias coletivas do colonialismo e da descolonização, estamos falando principalmente sobre memória compartilhada, memória que pode ter sido iniciada por indivíduos, mas que foi mediada por redes de comunicação, instituições do Estado e grupos sociais da sociedade civil.
Mais efetivamente do que Arendt ou Taslitzky, Césaire retrata a metrópole como definida e permeada pela violência das periferias coloniais; além disso, a própria força de sua retórica serve para destacar a agência e a subjetividade do colonizado dentro de uma esfera discursiva francesa. Em seu Discurso, Césaire descreve a brutalidade nazista como um “crime contra o homem branco” que “aplicou à Europa procedimentos colonialistas que até então tinham sido reservados exclusivamente aos árabes da Argélia, aos ‘coolies’ da Índia e aos ‘niggers’ da África”. Usando uma frase próxima à noção de Arendt de “efeito bumerangue” (choque reverso, reação, efeito bumerangue) – e, de fato, traduzida como “efeito bumerangue” pelo tradutor de língua inglesa de Césaire – Césaire descreve o impacto dessa aplicação de procedimentos colonialistas como um choc en retour para autoconcepções europeias.
Exemplos de trauma histórico incluem escravidão, Holocausto e guerra; exemplos de trauma estrutural tendem a ser mais especulativos e incluem “separação da mãe/do outro [from the [m]other], a passagem da natureza para a cultura, […] a entrada na linguagem”. Como LaCapra observa, não é surpreendente que essas duas formas de trauma se sobreponham em certos contextos, especialmente os pós-traumáticos; no entanto, confundir a distinção entre ausência e perda pode ter consequências intelectuais e políticas debilitantes. Por um lado, redirecionar as perdas históricas para a ausência estrutural pode levar à melancolia ou ao desespero frente às possibilidades de superar o passado ou confrontar os problemas do presente. Reduzir o trauma estrutural a um evento histórico, por outro lado, pode reforçar mitos de onipotência e levar a tentativas perigosas de soluções políticas totalizantes.
Durante a guerra, e apesar de controvérsias, a França usou a tortura como recurso habitual contra os argelinos. Quase imediatamente, os intelectuais passaram a ver a tortura como um problema definidor da era da descolonização; como o próprio Morin escreveu em um artigo de 9 de julho de 1959 no France Observateur, “O novo cogito da esquerda só pode ser a recusa incondicional e universal da tortura.” A prática da tortura também evocou memórias da ocupação alemã da França, tanto entre os membros da resistência esquerdista quanto entre algumas autoridades estatais. Por exemplo, ao apresentar sua renúncia em 1957, o secretário-geral da polícia em Argel, Paul Teitgen, um ex-deportado, escreveu que reconheceu na Argélia “traços profundos […] da tortura que há quatorze anos sofri pessoalmente nos porões da Gestapo em Nancy”.
Ao ignorar as interações dialógicas da memória do Holocausto com os legados do colonialismo, da descolonização, da racialização e da escravidão, eles não apenas simplificam a história da memória do Holocausto, como também acabam produzindo uma noção de moralidade que permanece muito singular e abstratamente universal. Uma compreensão mais heterogênea da ação moral que reconhece a importância da comparação e generalização, ao mesmo tempo que resiste à simples universalização, pode não produzir um código moral global, mas pode produzir as bases para novas visões transnacionais de justiça e solidariedade que não reproduzam o código abstrato facilmente manipulado “do bem e do mal”. Como se tornou especialmente claro no pós-11 de Setembro, esse código fornece precisamente as balizas erradas para pensar sobre os legados da violência política. Uma moralidade “além do bem e do mal” significaria, nessas circunstâncias, uma moralidade que reconhece o perigo da categorização abstrata e dos modelos morais singulares. Uma consciência multidirecional dos ecos transversais da história pode ajudar a produzir uma visão que reconheça a aporia da responsabilidade – o difícil trabalho de evitar a ação em cumplicidade à medida que relembra a cumplicidade generalizada própria à vida humana.
Extraio dois corolários dos tipos de conflito de memória que a disputa israelense/palestina tornou emblemática. Primeiro, não podemos conter a multidirecionalidade estrutural da memória. Mesmo que fosse desejável – como às vezes parece ser – erguer um muro, ou cordon sanitaire (cordão sanitário), entre diferentes histórias, não é possível fazê-lo. As memórias são móveis; as histórias estão implicadas umas nas outras. Assim, e finalmente, entender o conflito político pressupõe entender o entrelaçamento de memórias no campo de força do espaço público. Só o caminho de seu emaranhado pode nos levar adiante.
TEXTO da edição original
Memória Multidirecional reúne, pela primeira vez, estudos sobre o Holocausto e estudos pós-coloniais. Adotando uma abordagem comparativa e interdisciplinar, o livro apresenta um argumento duplo sobre a memória do Holocausto na era da globalização, situando-a no contexto inesperado da descolonização. Por um lado, demonstra como o Holocausto possibilitou a articulação de outras histórias de vitimização, ao mesmo tempo em que foi declarado "único" entre os horrores perpetrados pelo homem. Por outro lado, revela o fato mais surpreendente e raramente reconhecido de que a memória pública do Holocausto emergiu, em parte, graças a eventos do pós-guerra que, à primeira vista, parecem ter pouca relação com ele. Em particular, Memória Multidirecional destaca como os processos contínuos de descolonização e os movimentos pelos direitos civis no Caribe, na África, na Europa, nos Estados Unidos e em outros lugares galvanizaram inesperadamente a memória do Holocausto.
SUMARIO
Apresentação: Dois Contextos Nacionais – Michel Gherman
1. Introdução: Teorizando a Memória Multidirecional em uma Era Transnacional
PARTE I. EFEITOS BUMERANGUE: Vida Nua, Trauma e a Virada Colonial nos Estudos do Holocausto
2. Nos Limites do Eurocentrismo: As Origens do Totalitarismo de Hannah Arendt
3. “Un Choc en Retour”: Os Discursos de Aimé Césaire Sobre Colonialismo e Genocídio
PARTE II. MIGRAÇÕES DA MEMÓRIA: Ruínas, Guetos, Diásporas
4. W.E.B. Du Bois em Varsóvia: Memória do Holocausto e a Linha de Cor
5. Estéticas Anacrônicas: André Schwarz-Bart e Caryl Phillips nas Ruínas da Memória
PARTE III. VERDADE, TORTURA, TESTEMUNHO: A Memória do Holocausto Durante a Guerra da Argélia
6. A Obra do Testemunho na Era da Descolonização: Crônica de um Verão e a Emergência do Sobrevivente do Holocausto
7. A Testemunha Contrapública: Les Belles lettres de Charlotte Delbo
PARTE IV. 17 DE OUTUBRO DE 1961: Um Lugar de Memória do Holocausto?
8. Um Conto Sobre Três Guetos: Raça, Gênero e “Universalidade” Após o 17 de Outubro de 1961
9. Crianças Escondidas: A Ética da Memória Multigeracional Após 1961
Epílogo: Memória Multidirecional em uma Era de Ocupações
Notas
Lista de Ilustrações
Índice
Agradecimentos
FICHA TÉCNICA
Tradução: Rainer Patriota
Coleção [IBI07]
Sociologia / Memória
IMPRESSO
brochura
12,5 x 20,5 cm
432 páginas
ISBN 978-65-5505-290-9
Lançamento 10 jun DE 2026
lombada 2,1 cm
peso 423 g
EBOOK
ISBN 978-65-5505-291-6
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