O IMPERDOÁVEL
“Você É Judeu?”
Danielle Cohen-Levinas
Tradução: Newton Cunha
DESCRIÇÃO CURTA
O Imperdoável, de Danielle Cohen-Levinas, por intermédio de diversas figuras importantes da filosofia contemporânea e do pensamento judaico, examina a questão dos impasses lógicos e éticos do perdão.
SINOPSE
O Imperdoável é uma análise filosófica e histórica sobre o judaísmo, o perdão e a relação do povo judeu com a modernidade.
Danielle Cohen-Levinas explora filosoficamente a complexidade do perdão e do imperdoável, especialmente no contexto do antissemitismo e do Holocausto. A autora reflete sobre o perdão como uma aporia, confrontando seus limites éticos e históricos. A obra analisa o impacto do antissemitismo na cultura ocidental, a relação entre judaísmo e cristianismo, e a crise do humanismo após Auschwitz. Cohen-Levinas discute o perdão como uma possibilidade que só faz sentido diante do imperdoável, destacando sua dimensão escatológica e sua conexão com a justiça e a responsabilidade humana.
QUARTA-CAPA
Danielle Cohen-Levinas traz uma análise filosófica e histórica sobre o perdão, a identidade judaica e o impacto do Holocausto na consciência da humanidade. Ao refletir sobre o perdão e o mal radical, o texto aborda a complexidade dessa relação, especialmente no contexto religioso e filosófico, destacando a impossibilidade de perdoar o imperdoável e as implicações éticas e morais da questão. A autora explora a relação entre perdão e responsabilidade e o perdão como uma aporia filosófica, um problema que enfrenta limites intransponíveis e leva a um impasse lógico, destacando sua importância, e suas diferenças, nas tradições judaica e cristã. Ao analisar o papel do mal radical na história do pensamento moral e suas consequências, Cohen-Levinas ressalta a impossibilidade do perdão absoluto e a necessidade de uma ética que aceite o imperdoável.
DANIELLE COHEN-LEVINAS
Filósofa e musicóloga, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Paris IV -Sorbonne, além de fundadora e diretora nessa mesma universidade do Colégio de Estudos Judaicos e Filosofia Contemporânea - Centro Emmanuel-Levinas (Collège des Études Juives et de Philosophie Contemporaine – Centre Emmanuel Levinas).
Paralelamente a seus estudos em estética e filosofia da música, em filosofia contemporânea e pós-fenomenologia na França, desenvolve um trabalho em filosofia judaica, em torno do pensamento judaico-alemão (H. Cohen, F. Rosenzweig, G. Scholem, L. Strauss...) e da Escola de Frankfurt (Adorno, Benjamin, Bloch...), bem como do renascimento dos estudos bíblicos e talmúdicos na Europa.
COLEÇÃO A QUESTÃO JUDAICA CONTEMPORÂNEA
Esta coletânea propõe uma contextualização crítica e uma análise situada das múltiplas configurações identitárias, políticas e simbólicas da questão judaica contemporânea, considerando os desdobramentos do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 a Israel e a subsequente resposta militar israelense em Gaza.
ORELHA
“Lutero recomendou às autoridades civis que tomassem providências contra os judeus, entendendo-se que estes exibiam sua exceção desprezando o sacrifício de Cristo. Nesse sentido, a Lei mosaica pode ser entendida como o equivalente de um poder absoluto, do qual é urgente destruir os fundamentos, porque é estranha à Lei da Igreja. Por isso, Lutero se dirigiu às autoridades civis para convencê-los da presença prejudicial dos judeus nas comunidades cristãs, intimando-os a queimar sinagogas, destruir suas casas, confiscar livros de preces e os talmidim30, proibir a usura, fazer trabalhar os judeus até o esgotamento, e, se necessário, expulsá-los”
[...]
A Reforma é inseparável de um processo de censura progressiva em meio a um debate que recorreu à força e à violência. [p. 57-59]
CONTRIBUIÇÃO DA OBRA
1. A obra aborda e atualiza a discussão sobre a chamada “questão judaica” e suas repercussões na história da Europa e na filosofia.
2. O cerne do livro é a discussão sobre o perdão (o que é o perdão?; quem pode perdoar?) na qual a autora defende a tese de que há aquilo que não pode ser perdoado, inclusive por não haver quem possa conceder esse perdão.
PÚBLICO-ALVO
Descrição dos públicos principais
PALAVRAS-CHAVE
Relação de palavras
TRECHOS
Existe uma ínfima alternância entre o perdão e o imperdoável, e a passagem de um para outro significa para mim a maravilha do humano ou mesmo o resgate do humano. Pois o que seria uma humanidade que ignora ou quer ignorar a possibilidade do perdão? E que seria uma humanidade que considera que o perdão é adquirido de uma vez por todas, que ele é dado e nunca retomado?
O significado de “impossibilidade” é específico e complexo. Ele é específico porque o perdão é intimado a responder ao imperdoável – entendido como a realidade do mal absoluto na história. Ele é complexo no sentido de que a impossibilidade do perdão não designa uma impossibilidade entre outras. Ele marca uma impossibilidade que transcende as categorias modais da atualidade e da possibilidade. Essa impossibilidade singular do perdão suspende assim a ética: o perdão não é classificável sob uma regra geral da moral, nem seria equivalente a uma virtude. Para Jankélévitch, a “loucura” do perdão reflete o caráter excêntrico do perdão. Devido a essa ambiguidade, vacila entre dois polos: a impossibilidade e a trivialidade. Na verdade, é impossível discernir se o ato de perdoar o imperdoável é o mais sublime ou o mais ingênuo, até mesmo estúpido. De fato, é impossível saber se perdoar o imperdoável constitui imoralidade ou blasfêmia – se é imperdoável ter perdoado o imperdoável – ou se perdoar na impossibilidade constitui o perdão em sua pura “transcendência”.
“Lutero recomendou às autoridades civis que tomassem providências contra os judeus, entendendo-se que estes exibiam sua exceção desprezando o sacrifício de Cristo. Nesse sentido, a Lei mosaica pode ser entendida como o equivalente de um poder absoluto, do qual é urgente destruir os fundamentos, porque é estranha à Lei da Igreja. Por isso, Lutero se dirigiu às autoridades civis para convencê-las da presença prejudicial dos judeus nas comunidades cristãs, intimando-as a queimar sinagogas, destruir suas casas, confiscar livros de preces e os talmidim, proibir a usura, fazer trabalhar os judeus até o esgotamento, e, se necessário, expulsá-los”
A Reforma é inseparável de um processo de censura progressiva em meio a um debate que recorreu à força e à violência.
Nem o grego, nem o judeu seguem a negação pura e simples da razão ou do espírito, ou do desprezo de um Deus único e irrepreensível. O trágico, assim como o paganismo, radicaliza uma impossibilidade irredutível: a impotência em sair da sua condição ao ponto de substituir o tempo da historicidade pelo da eternidade. Daí a importância de voltar ao conhecimento antigo, às luzes medievais para Strauss, assim como às fontes judaicas para Levinas. Tal conhecimento requer um exame exaustivo dos textos, das línguas, das tradições hermenêuticas e filológicas. O retorno às fontes judaicas e gregas é essencial para compreender a história da civilização ocidental. Não se trata de opor Atenas e Jerusalém, mas sim de mostrar a indissociabilidade dessas duas cidades simbólicas que se tornaram, por força das coisas, dois idiomas teológico-políticos. Falar da experiência judaica é referir-se tanto a um texto como a uma Lei. Uma lei baseada num texto pode também ser entendida como um mandamento de filosofar.
Tentamos pensar o imperdoável na proximidade do perdão, como uma modalidade da existência humana confrontada com a possibilidade de uma reflexão sobre o perdão e o perjúrio. Nós o pensamos como um imperativo ético que conserva o traço de um irreparável, como uma efetividade dolorosa que não dissolve a questão do imperdoável, mesmo quando o perdão foi pronunciado e concedido. A abertura original do sentido do perdão já não seria o movimento hiperbólico, segundo o qual só se pode perdoar o imperdoável. Seria um buraco, uma lacuna no coração da história que nenhuma hipérbole ética jamais poderá preencher. Em outras palavras, o imperdoável ocupa um lugar vazio. Consentir em ver na impossibilidade de preencher o vazio a própria possibilidade do perdão, é arriscar-se a questionar o próprio sentido do imperdoável. Que o imprescritível acolha à sua mesa o prescritível, eis o que poderia levar a banalizar o mal radical, a inscrevê-lo numa retórica desconstrutora e chegar-se a um não lugar, uma espécie de empate entre dois irredutíveis que são o perdoável e o imperdoável. Pensamos, ao contrário, que o imperdoável é já em si uma figura de interrupção do prescritível, que o perdão não pode cobrir. Diante do medo e da assombração do eterno retorno sempre possível do mal, diante da impossibilidade de uma prática humana adequada que viesse a acabar com este mal, “é preciso” que o imperdoável permaneça imperdoável.
Diante do absurdo que representam os crimes contra a humanidade, o corte ético entre o prescritivo e o imprescritível exige uma fronteira não negociável entre a expiação pelo outro e o inexpiável.
A aporia, como quadratura do círculo, nos faz cair num abismo de perplexidade: o perdão, para ser um perdão, deve excluir a instância ou a pessoa que recebe. Deveria também excluir a instância doadora, pessoa ou instituição? Derrida cava um abismo fenomenológico. Ele cava a estrutura da espera do perdão até afirmar, nessa primeira sessão de seminário, que o essencial não é dizer a palavra perdão, mas dar--lhe significado [...].
Nunca se dirá o suficiente: A Schoá não tem equivalente. Esse afresco não é sobre a sobrevivência, mas sobre a morte em câmaras de gás. Ele muda radicalmente as categorias estéticas e éticas baseadas na questão da representação, da ficção, da narrativa e das chamadas obras de documentário. A Schoá literalmente explode não só as formas, mas também as linguagens vigentes em todos os registros da representação estética. Esta é uma questão essencial à qual a nossa modernidade não escapa. Podemos falar dela como de uma obra ou, mais ainda, de uma obra-prima de defecção da representação? Que categoria invocar? Necessidade única, única determinação absoluta: expor a nudez do irrepresentável e daquilo que não pode ser figurado. Não existe uma categoria listada para qualificar Schoá [...].
SUMARIO
Mais Forte Que o Mal, Mais Forte Que o Perdão – Prefácio à Edição Brasileira
Prefácio: O Indesconstrutível
O JUDEU DA NEGATIVIDADE
1. O Judaísmo da Europa Moderna Após a Reforma de Lutero
Somos Convidados à Nossa Própria Mesa (Rosenzweig)
Nascimento de uma Hostilidade
História de um Quiasmo
Que Futuro Para os Judeus na Europa?
Um Paradigma Judeu?
2. A Exceção Europeia: Após o Fim do Humanismo e do Anti-Humanismo
A Europa Desorientada
Bipolaridade: Populismos e Cosmopolitismos
Você Disse “Crise”?
Arqueologia do Humanismo e do Anti-Humanismo
O Homem É Tudo, o Homem É Nada
Nada a Mais, Nada a Menos
Regresso à Europa
3. A Identidade Judaica à Prova: Jankélévitch, Sartre, Levinas
Dissemelhar Assemelhando-Se
Uma Mentira Invariante
Um Sintoma Pornográfico
O Complexo Não Judaico
Ser Judeu e Facticidade
LIÇÃO DE COISAS
1. O Século Em Que Deus Morreria
Do Mal Elementar
Metafísica, Historicismo e Progressismo: Nietzsche e a Negação da Vida
Entre Niilismo, Judaísmo e Política: A Hipótese de Leo Strauss
O Fato e o Valor
O Ideal de Atenas e o Ideal de Jerusalém
Aonde Vai o Ideal da Civilização Europeia?
Retorno ao Mito: Passando Por Ésquilo e Sófocles
Do Lógos à Palavra Bíblica
2. Um Existir Pagão: Heidegger, Rosenzweig, Levinas
Antijudaísmo e Não Lugar
Da Judiaria Mundial
O Desenraizamento Histórico
Um Resto de Judaísmo
Grego-Alemão
3. Partir do Dasein ou Partir do Judeu
O Nascimento de um Antagonismo
Da Subjetividade Viva
Futuro, Responsabilidade Pelo Outro e Perdão
Profecia Contra Paganismo
E VEIO UM FARAÓ QUE NÃO HAVIA CONHECIDO JOSÉ
1. E Veio um Faraó Que Não Havia Conhecido José: Uma Leitura Filosófica da Bíblia
A Vida Como Sobrevivência
Sobreviver
As Lágrimas Bíblicas
2. Mais de um Judeu: Sarah Kofman Seguindo os Passos de Nietzsche
Porque Ele Era Judeu, Porque Ela Era Judia
Biografema e Filosofema
Face de Jano do Judeu
O Que Fazer Com a Noção de Raça
Paixão, a Vida, a Morte
3. O Imperdoável
É Preciso!
O Imperdoável É Indesconstrutível
A Travessia das Aporias
Dom e Perdão
Há Dom
Justiça e Perdão
O Perdão: A Obra do Imperdoável
Dedicatória: O Irrepresentável
Schoá de Claude Lanzmann
Testemunhar o Impensável
O Homem Que Anda
O Infigurável
Epílogo: Lembra-te de Amalec
A Parábola da Água Fervente Que Esfria
Desformalizar o Tempo do Irreversível
Índice de Nomes
FICHA TÉCNICA
Coleção A Questão Judaica Contemporânea [IB.08]
Filosofia / Religião
IMPRESSO
brochura
12,5 x 20,5 cm
296 páginas
ISBN 978-65-5505-288-6
Lançamento 15 jun de 2026
lombada 1,86 cm
peso 300 g
EBOOK
ISBN 978-65-5505-289-3
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