ADOLESCÊNCIAS PLURAIS
Andréa Máris Campos Guerra
DESCRIÇÃO CURTA
Adolescências Plurais aborda as experiências diversas e os desafios enfrentados por adolescentes contemporâneos, explorando suas identidades, os vários contextos sociais e culturais, e as implicações que se exige para uma escuta ativa e para a ação de cuidados em relação a este grupo.
SINOPSE
Adolescências Plurais, de Andréa Máris Campos Guerra, aborda a complexidade da adolescência contemporânea sob uma perspectiva psicanalítica, histórica e sociopolítica. A obra explora como o conceito de adolescência foi construído ao longo do tempo, destacando os apagamentos e invisibilizações de experiências adolescentes em diferentes contextos geopolíticos e culturais. A autora questiona a ideia de uma adolescência universal, mostrando como fatores como cor da pele, classe, gênero e localização geográfica moldam as vivências dos jovens.
A partir de reflexões sobre o impacto do colonialismo, do neoliberalismo e das estruturas de poder, a autora analisa como essas forças influenciam os modos de adolescer, criando desigualdades e perpetuando violências. Andréa Guerra também discute temas como suicídio, agressividade, automutilação, e os desafios enfrentados por adolescentes em situações de vulnerabilidade, como indígenas, negros e periféricos.
A obra propõe uma abordagem de cuidado que valorize a singularidade dos jovens, respeite suas experiências e os apoie em suas travessias. Ademais, destaca a importância de romper com processos de invisibilização e de construir novas formas de pertencimento e laços sociais. Por meio de uma análise crítica e interdisciplinar, Adolescências Plurais busca ampliar o entendimento sobre as adolescências plurais e oferecer caminhos para um acompanhamento mais ético e inclusivo.
QUARTA-CAPA
Onde erramos?
Já faz algum tempo, comportamentos estranhos ou violentos ou indiferentes ou desdenhosos ou desinteressados ou automutiladores ou irritadiços ou furiosos ou complacentes parecem ter invadido o universo psíquico dos adolescentes. Como compreender este fenômeno? Como reagir a ele? como encontrar um caminho possível de atuação para que esses jovens se reencontrem com o prazer da convivialidade?
Andréa Máris Campos Guerra, professora e psicanalista, estudiosa do caráter social da psicanálise, traça um perfil contundente do jovem não criança nem adulto, analisa seu estar no mundo visível dos privilégios e invisível dos desprivilegiados e busca para ele uma geolocalização simbólica e real que recupere um lugar físico e psíquico de apoio para a vivência e a convivência. um texto direto e comovente, que enfrenta talvez o maior desafio dessa nossa contemporaneidade radicalmente distópica.
ANDRÉA MÁRIS CAMPOS GUERRA
Graduada em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora e em Psicologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. É mestre em Psicologia Social pela UFMG e doutora em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com período de estudos aprofundados na Universidade de Rennes II e pós-doutorado em andamento da Universidade de Paris 8. Atualmente é professora Adjunta do Departamento de Psicologia da UFMG e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMG. Ênfase da produção acadêmica e profissional junto aos temas de Psicanálise e Política; Adolescência e Infração; Clínica psicanalítica. É autora de, entre outros títulos, Adolescências em Tempos de Guerra: Modos de Pensar, Modos de Operar (UFRGS Editora, 2025), Ocupar a Psicanálise: Por uma Clínica Antirracista e Decolonial (N-1, 2023) e Sujeito Suposto Suspeito: A Transferência Psicanalítica no Sul Global (N-1, 2022).
COLEÇÃO ELOS
Elos, é a coleção na qual "grandes textos curtos" de autores significativos são disponibilizados em pequeno formato, totalizando mais de sessenta títulos que abordam temas que vão da política (Os Nomes do Ódio, de Roberto Romano) à estética (O Prazer do Texto, de Roland Barthes), da filosofia à crítica literária, passando pela ficção, com trabalhos de Affonso Ávila, Boris Schnaiderman, Celso Lafer, Anatol Rosenfeld, Octavio Paz, Emmanuel Lévinas, Immanuel Kant, Pierre Bourdieu.
DA CAPA
Detalhe a partir de Margaret Taylor Burroughs, Nenhum Homem É uma Ilha, 1957.
PÚBLICO-ALVO
Pais, profissionais das áreas de educação, assistência social, saúde mental, público em geral.
PALAVRAS-CHAVE
Adolescência, psicanálise, sociologia, decolonização, racismo, diversidade, violência.
TRECHOS DO LIVRO
Introdução
Os primeiros anos deste século ficaram marcados pela presença de adolescentes e jovens em situações inusitadas, em diversos pontos do planeta, constituindo o que podemos chamar de geopolítica da diferença. No Japão, os jovens hikikomori (literalmente, “ficar confinado”) ficam num isolamento social, físico e interpessoal, sem sair de seus quartos. Precisam, por vezes, que lhes levem comida para que não pereçam. E, após seis meses nesse estado, recebem o diagnóstico, segundo o psicólogo Tamaki Saito. Um problema de saúde pública no Oriente.
Nos EUA, os tiroteios em massa impulsionados pela adolescência chegaram a 1,5% por dia nos primeiros três meses do ano de 2023, segundo a plataforma Gun Violence Archive. No Brasil, foram os jovens de distintas etnias indígenas, como ianomâmi, sanumá e iecuana, que foram levados ao suicídio, três vezes mais que adolescentes de regiões urbanas e rurais no país.
Introdução
Vivemos um tempo de deslocamento do saber. A mudança na compreensão de que, no eixo econômico global, o Sul é interdependente, e não atrasado em relação ao Norte, acarretou um novo olhar sobre o subalterno. Entendendo Sul e Norte como lugares contra-hegemônico e hegemônico, tornou-se possível entender com base em qual tipo de violência naturalizada o mundo ocidental se firmou como referente de humanidade. [...] Somos muitas naturezas. Não é mais possível ler o mundo, ordenar os corpos, separar os gêneros, manter hierarquias entre humanos, como se houvesse uma única ordem evolutiva, porque natural.
Introdução
[A] geopolítica e a interseccionalidade (raça, classe e gênero) fundam condições de desigualdade, de apagamento e de violência, que não são visíveis pelo foco temporal da tela dominante. As mutações históricas não explicam as diferenças globais. É preciso desvelar o modo hegemônico como as adolescências se escrevem, como são apagadas, rasuradas, como poderão ser reescritas ou como serão, de modo novo, despojadas de si mesmas.
O uso do espaço virtual, as experiências de corpo não binárias, os novos modos de aprendizado, as automutilações e escarificações, os transtornos alimentares, a violência e a agressividade juvenis, força novas configurações no entendimento das manifestações do que são as adolescências.
Capítulo 1
adolescentes infratores assumem as contas da casa e o comando de famílias que deveriam protegê-los. São, na sua maioria, identificados com o gênero masculino, negros e pobres. Defendendo a sobrevida de suas mães e irmãos, envolvem-se em atividades produtivas ilícitas para garantir o sustento de sua família de origem. Não é preciso lembrar, mas não custa, que a exploração do trabalho infanto-juvenil pelo tráfico de drogas é considerada pela Unicef uma das cinco piores formas globais de abuso. Nossas investigações acompanham os dados internacionais: as crianças pobres são iniciadas no trabalho doméstico em torno de cinco, seis anos de idade. Aos dez, já estão nas ruas trabalhando e, em torno dos quatorze, quinze anos, são cooptadas pela criminalidade.
Capítulo 2
A criança, diferentemente do que o adolescente vai experimentar, encontra satisfação pulsional no próprio corpo. Já o púbere começa a experimentar uma transição quanto ao modo de obter prazer, pois passa a incluir o corpo de um outro como objeto erógeno. O ganho de prazer, na infância, é encontrado em qualquer parte do corpo erogeneizado, de modo parcial e sem ligação entre esses modos. Esse ganho se torna um obstáculo para a corrente sexual na puberdade, já que o alvo ou a via prazerosa se torna outro corpo. É necessário abrir mão, perder um ganho de prazer parcial, para encontrar, no novo objeto, uma fonte de satisfação que também é nova.
Capítulo 3
Na América Latina, a noção de juventude se destaca da de adolescência, ganhando especialmente no século XXI, uma dimensão social e política numa perspectiva construcionista, sociocrítica e histórico-econômica. Especialmente nos países em fase de transição democrática e de consolidação econômica, a diferença entre adolescência e juventude ganha um sentido denotativo e comporta um campo específico de significados que congela associações, como adolescente = rico, jovem = trabalhador. A eles agrega-se a terminologia jurídica menor que sela o destino imaginado pelas classes privilegiadas para a juventude periférica, pobre e no mais das vezes negra velado pelo discurso capitalista: menor = infrator, logo, passível de eliminação.
Capítulo 4
O exército dos invisíveis desaparece com mais frequência na adolescência. Como vimos, as adolescências plurais compõem um quadro que não se inventaria como passível de pertencimento e proteção, de existência e humanidade. Eles são os adolescentes pobres e negros mortos nas periferias urbanas brasileiras; suicidados entre os povos indígenas; a geração de mulheres adolescentes portadoras de Aids, fruto de estupros e violências cotidianas no continente africano; os jovens soldados em guerras étnicas em diferentes países africanos; assassinos de aluguel denominados sicários na Colômbia; órfãos na faixa de Gaza; púberes escravizados na Costa do Marfim; os milhares a tentar a sorte na travessia migrante do Mar Mediterrâneo em busca de outra vida nos países europeus; etnias dizimadas ou racializadas e sem porvir.
Capítulo 4
Nessa situação, a jovem que acabara de perder seu parceiro de rua, morto por overdose, chega a um serviço de acolhimento a adolescentes em situação de rua com outro colega e cacos de vidro na mão. Ameaça o porteiro e um educador social. Nesse dia, ao ser abordada, chora muito e vai embora. Não há o que dizer, sua agressividade não está endereçada. Ela pensa em se matar.[...] Ela sai da cena e tenta se lançar de um viaduto. A ameaça é intensa e o barulho que ela acarreta tem o volume do excesso pulsional.
Freud propõe três vias de tratamento dos impulsos agressivos:
1. Um poder contentor com função de autoridade e seu correlato, que é o medo da perda da própria vida.
2. O desvio da pulsão agressiva para sua oposição, finalidade sexual e afetiva responsável pela criação de laços, tratando a pulsão de morte pela pulsão de vida, ou sua correlação, constituindo raízes na identificação como outra forma de enlaçamento social.
3. As saídas sublimatórias, artísticas e culturais, estéticas, em síntese. Freud aposta, portanto, numa solução civilizatória ético-estética idealizada, pois exige o engajamento de cada sujeito em sua própria história e na história da humanidade. Tomando a civilização como processo devastador, certamente teremos que repensar, com Freud, novas soluções.
SUMARIO
Introdução
1. Um Pouco da História Não Contada Sobre as Adolescências
2. Afinal, o Que Adolesce?
3. Apagamentos e Rasuras na Dialética do Adolescer
4. Adolescências Pelo Avesso: O Plural
5. Agressividade, Ato e Suicídio
6. O Avesso Contracolonial
7. O Que Mudou na Virada de Século
8. Como Acompanhar Adolescências Plurais
Conclusão
Referências
FICHA TÉCNICA
Autora: Andréa Máris Campos Guerra
Coleção Elos
Psicologia e Psicanálise
IMPRESSO
brochura
11 x 18 cm
128 páginas
ISBN 978-65-5505-277-0
Lançamento 20 fevereiro
EBOOK
ISBN 978-65-5505-278-7
