PENUMBRA DA AURORA
Uma Autobiografia do Conceito de Raça
W.E.B. Du Bois
Prefácio: Matheus Gato e José Itzigsohn
Tradução: Projeto Du Bois / coordenação Matheus Gato
Textos de apoio (orelhas): Joaze Bernardino Costa
SINOPSE
Publicado em 1940, Penumbra da Aurora (Dusk of Dawn) não é uma história de vida convencional, mas, como o próprio subtítulo da obra indica, uma profunda autobiografia intelectual que utiliza as experiências pessoais de Du Bois como lente para analisar a evolução da raça como uma construção social e econômica.
O livro traça sua vida desde a infância na Nova Inglaterra, passando por sua educação em Fisk e Harvard, seu trabalho acadêmico e seu ativismo. Um tema central é seu conflito ideológico com o pedagogo Booker T. Washington, cuja filosofia de acomodação criticava duramente.
Du Bois desconstrói metodicamente a raça como um fato biológico, argumentando que, em vez disso, é um conceito arbitrário usado para justificar a exploração econômica e a hierarquia social. O autor vincula a persistência do racismo diretamente aos interesses econômicos.
Ao longo dos capítulos o leitor poderá perceber seu crescente radicalismo e internacionalismo como resultado da frustração com a política estadunidense. Detalha sua liderança na Associação Nacional Para o Progresso das Pessoas de Cor-NAACP, ainda hoje a principal instituição de defesa dos afrodescendentes estadunidenses, e narra sua crescente consciência pan-africana e sua eventual ruptura com a organização, devido à sua defesa de instituições econômicas negras separadas, como um movimento cooperativo.
Em última análise, o livro retrata a trajetória de Du Bois, desde a busca por refutar a ciência racial com dados até a compreensão da raça como um problema político e econômico global. Constitui uma obra fundamental que documenta sua luta de toda a vida contra as "forças, fatos e tendências contraditórias" do conceito de raça.
QUARTA-CAPA
"O problema do século XX é o problema da linha de cor". O autor da frase, W.E.B. Du Bois (1868-1963), foi um dos fundadores da NAACP, organização-símbolo da resistência negra nos EUA e editor da revista The Crisis. Sua produção acadêmica estabeleceu as bases do pensamento político negro radical.
Penumbra da Aurora: Uma Autobiografia do Conceito de Raça (Dusk of Dawn, 1940), não é um relato convencional de vida, mas uma profunda viagem intelectual que utiliza as experiências pessoais do autor como uma lente para analisar “raça” como uma construção social e econômica. Du Bois descreve a infância na Nova Inglaterra, sua educação em Fisk e Harvard, seu trabalho intelectual e seu ativismo, além do permanente conflito ideológico com Booker T. Washington (1856-1915), cuja filosofia de acomodação criticou com dureza, bem como seu despertar para a gravidade da situação, com os linchamentos do Sul dos EUA nos anos 1910-1930.
No coração da obra está a desconstrução metódica do conceito de “raça” como um “fato biológico”. Du Bois mostra como se trata na verdade de um conceito arbitrário, usado para justificar a exploração econômica e o status quo social e vincula diretamente a persistência do racismo aos interesses econômicos, sua verdadeira causa oculta, um problema político e econômico global, que até hoje fundamenta os movimentos racistas mundo afora.
ORELHA (Joaze Bernardino Costa)
W.E.B. Du Bois é um dos maiores escritores e intelectuais negros de todos os tempos, tendo escrito 22 livros autorais. Entre esses, aos 72 anos, no auge de sua maturidade intelectual, escreveu Penumbra da Aurora: Uma Autobiografia do Conceito de Raça, em que revê algumas ideias expostas em obras anteriores e reafirma o compromisso de lutar contra o racismo.
O sugestivo título é uma alusão poética à chegada do dia, momento em que a escuridão da noite diminui. Metaforicamente refere-se à esperança da conquista da plena liberdade e humanidade pelas populações racialmente subjugadas. O alvorecer de um novo dia, depara-se também com os vestígios da noite: uma cultura racista, o capitalismo racial, instituições segregadas, uma ciência que defendia a superioridade branca, por exemplo.
A vida de Du Bois é um exemplo do que a raça significou no mundo nos séculos XIX e XX. Pela leitura deste livro, é possível conhecer as razões e motivações que estavam por trás de seus escritos e de suas atuações políticas, bem como compreender os limites impostos pela linha de cor, o que poderá nos instigar a pensar em alternativas políticas para o enfrentamento do racismo no mundo contemporâneo.
W.E.B. DU BOIS
William Edward Burghardt Du Bois (Great Barrington, Massachusetts, 1868– Acra, Ghana 1963) foi um sociólogo, historiador, contundente polemista e ativista dos direitos civis e pan-africanista, considerado uma das maiores personalidades da história estadunidense. Intelectual de grande relevância e autor prolífico, cuja obra moldou a luta pela igualdade racial no século XX, foi o primeiro afro-americano a obter um doutorado pela Universidade de Harvard (1895). Também estudou na Universidade Fisk e na Universidade de Berlim.
Foi pioneiro na sociologia empírica com obras como The Philadelphia Negro (1899) e As Almas do Povo Negro (1903), em que introduziu o conceito de "dupla consciência".
Du Bois foi um dos fundadores da Associação Nacional Para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) em 1909 e atuou como editor de sua influente revista, The Crisis, por 24 anos. Em The Crisis, incentivou o desenvolvimento da literatura e da arte negras e exortou seus leitores a enxergarem a “beleza na negritude”. Ele foi a principal voz contra a política de acomodação e educação industrial do pedagogo afro-estadunidense Booker T. Washington, defendendo, em vez disso, plenos direitos civis, ensino superior e representação política para os afro-americanos (a "Décima Parte Talentosa").
Sua contribuição mais influente foi sua defesa pioneira do pan-africanismo, a crença de que todas as pessoas de ascendência africana tinham interesses comuns e deveriam trabalhar juntas na luta por sua liberdade e contra o colonialismo. Du Bois foi um dos líderes da primeira Conferência Pan-Africana em Londres, em 1900, e o idealizador de quatro Congressos Pan-Africanos realizados entre 1919 e 1927.
O nacionalismo negro de Du Bois se manifesta em sua crença de que os negros deveriam desenvolver uma “economia de grupo” separada, composta por cooperativas de produtores e consumidores, como arma para combater a discriminação econômica e a pobreza negra. Essa doutrina tornou-se especialmente importante durante a crise econômica da década de 1930 e precipitou uma luta ideológica dentro da NAACP.
Cada vez mais desiludido com o ritmo das mudanças nos EUA, ele se filiou ao Partido Socialista, foi investigado pelo FBI durante o macarthismo – inclusive por liderar o Peace Information Center, grupo pacifista pressionado pelo governo federal a se registrar como “agente estrangeiro” – e, por fim, ingressou no Partido Comunista. Emigrou para Gana em 1961, em cuja capital faleceria dois anos depois.
PALAVRAS NEGRAS
A coleção Palavras Negras reúne textos de intelectuais negros e negras, produzidos em diferentes contextos, como o acadêmico e o dos movimentos sociais. O objetivo é lançar e reeditar obras que contribuam para a análise das relações raciais no Brasil, abordando também questões de gênero e classe. Palavras Negras que inspirem reflexões e ações antirracistas.
DA CAPA
Imagem da capa: detalhe de Franz Kline, sem título. Centro Cultural Belém, Lisboa.
DO AUTOR
Sobre Penumbra da Aurora, em W.E.B. Du Bois: Writings, New York: Library of America, 1987
“Esse foi o conceito de raça que dominou minha vida, e cuja história tentei fazer o tema principal deste livro. Como tentei demonstrar, ele apresentou todo tipo de tendências ilógicas e inconciliáveis. Talvez seja errado falar dele como "um conceito", em vez de um conjunto de forças, fatos e tendências contraditórias. De qualquer forma, espero ter deixado claro o seu significado para mim.
Do Manifesto Niágara, grupo fundado por Du Bois, 1905
“Não acreditamos na violência, nem na violência desprezada do ataque, nem na violência louvada do soldado, nem na violência bárbara da multidão; mas acreditamos em John Brown, nesse espírito encarnado de justiça, nesse ódio a uma mentira, nessa vontade de sacrificar dinheiro, reputação e a própria vida no altar do direito. E aqui, na cena do martírio de John Brown, reconsagramos a nós mesmos, nossa honra, nossa propriedade, para a emancipação final da raça que John Brown morreu para libertar.”
TRECHOS DO LIVRO
Apologia
Minha vida teve seu significado, e seu único significado profundo foi por fazer parte de um problema; mas esse problema era, como continuo a pensar, o problema central das maiores democracias do mundo e, portanto, o problema do mundo futuro. O problema do mundo futuro é mapear, por meio da razão inteligente, um caminho não apenas por meio das resistências da força física, mas através da selva mais vasta e muito mais intricada de ideias condicionadas a reflexos inconscientes e subconscientes de coisas vivas; em uma razão cega de impulsos frequentemente irresistíveis de matéria sensível; dos quais o conceito de raça é hoje um dos mais inflexíveis e ameaçadores.
O Enredo
Nas dobras dessa civilização europeia, nasci e morrerei aprisionado, condicionado, deprimido, exaltado e inspirado. Integralmente uma parte dela e ainda, de modo mais significativo, uma de suas partes rejeitadas; alguém que se expressou em vida e ação e tornou vocal para muitos esse redemoinho único de emaranhamento social e paradoxo psicológico interno, que sempre me parece mais significativo para o sentido do mundo hoje do que outros problemas semelhantes e relacionados.
(...)
Mas a mente se agarrou desesperadamente à ideia de que as diferenças raciais básicas entre os seres humanos não haviam sofrido mudanças; e se agarrou a essa ideia não apenas por inércia e ação inconsciente, mas pelo fato de que, por causa do moderno comércio de escravos na África, uma tremenda estrutura econômica e, por fim, uma revolução industrial se basearam nas diferenças raciais entre os homens; e essa diferença racial agora fora racionalizada em uma diferença principalmente na cor da pele. Assim, na última parte do século XIX, quando nasci e cresci até a idade adulta, a cor tornou-se um fato permanente e imutável, principalmente porque uma massa de instintos autoconscientes e preconceitos inconscientes havia se organizado em sua defesa. Governo, trabalho, religião e educação tornaram-se baseados e determinados pela linha de cor. O futuro da humanidade estava implícito na raça e cor dos homens.
O Conceito de Raça
A história do desenvolvimento da noção de raça no mundo, e particularmente na América, refletiu-se naturalmente na educação oferecida a mim. Na escola primária, ela vinha apenas na disciplina de geografia, quando as raças do mundo: indianos, negros e chineses, eram retratadas por seus representantes mais incivilizados e bizarros; já os brancos eram representados por algum filantropo gentil de aparência ilustre. No ensino fundamental e médio, não duvido que o assunto só foi tocado eventualmente devido à ponderação dos professores, e, novamente, minha inferioridade racial não poderia ser enfatizada porque o único representante da raça negra na escola não era, de forma alguma, inferior a seus colegas. Na verdade, superá-los, de várias maneiras, não foi algo difícil, e eu considerava isso bastante natural.
Em Fisk, o problema da raça era encarado abertamente, a igualdade racial essencial era afirmada e a inferioridade natural era negada com veemência. Em alguns casos, os professores expressavam essa teoria; na maioria dos casos, era a opinião dos estudantes que, naturalmente, reforçava isso. Por outro lado, em Harvard comecei a enfrentar o dogma científico da raça: primeiramente a evolução e a "sobrevivência do mais apto". Na comunidade e nas aulas, era continuamente enfatizado que havia uma grande diferença no desenvolvimento dos brancos e das raças "inferiores" e que isso podia ser visto no desenvolvimento físico do negro. Lembro-me de uma vez, num museu, de ter ficado cara a cara com uma demonstração disso: uma série de esqueletos dispostos desde um pequeno macaco até um homem branco alto e bem desenvolvido, com um negro que estava a frente apenas de um chimpanzé. Por fim, nas aulas que tive, a ênfase foi sendo discretamente transferida para o peso e a capacidade do cérebro e, finalmente, para o "índice cefálico".
(...)
Creio que foi na África que percebi mais claramente a estreita ligação entre raça e riqueza. Havia uma vontade, consciente ou inconsciente, de aumentar os rendimentos aproveitando ao máximo as vantagens das crenças raciais. Isso se dava mesmo entre as mentes mais dogmáticas de defensores das teorias raciais e dos crentes mais fervorosos na inferioridade das pessoas de cor. E então, gradualmente, essa percepção foi se transformando em uma compreensão de que o valor de rentabilidade do preconceito racial era a causa e não o resultado de teorias de inferioridade racial; que, particularmente nos Estados Unidos, a rentabilidade do reino do Algodão, baseada na escravidão negra causou a crença apaixonada na inferioridade negra e o empenho de reforçá-la até mesmo pelas armas.
O Mundo Branco
Assim, em minha vida o fato central tem sido a raça – não tanto a raça científica, mas aquela profunda convicção de miríades de homens que as diferenças congênitas entre os principais grupos de seres humanos condicionam absolutamente o destino individual de cada membro de um grupo. No provincialismo espiritual dessa crença eu nasci e esse fato guiou, amargou, iluminou e consagrou minha vida. No entanto, como explicar e esclarecer seu significado para uma alma? A descrição falha – eu experimentei isso.
Da personificação do amigo branco fictício
Tudo isso o levou a compreender – e até a prezar – um código que começou com a guerra. Não apenas preparação nem simplesmente a defesa, mas a guerra contra as raças mais escuras, realizada agora e sem distinção complacente em relação a quem fosse escuro: guerra contra o rifenho, o turco, os chineses, japoneses, índios, negros, mulatos, italianos e sul-americanos. Esse fato, que ele mesmo conhecia perfeitamente bem, fora confirmado recentemente por Charles Lindbergh, autoridade notória que esbanjava riqueza e conhecimento em uma viagem a Paris. A guerra e tudo o que é necessário para implementá-la: É preciso odiar nossos inimigos. Isso pode soar um pouco pagão, mas sem um ódio visceral, sem qualquer firmeza para combater o mal até a morte, não é possível haver guerra de verdade! Precisamos colocar ênfase no "branco": agir como um homem “branco", fazendo coisas “de branco"; anjos "brancos" etc.; há de se realizar esforços para promover os romances que concebem heróis brancos, demônios negros e patifes marrons com almas amarelas; empenho em usar o teatro e o cinema pelo mesmo motivo; ênfase no elemento racial nos crimes.
Nesse caso, também, não há espaço para honestidade ou escrúpulos, infelizmente. A autopreservação é uma primeira lei; os crimes e insucessos dos brancos, embora infelizes, são acidentais; notícias sobre eles devem ser ignoradas ou suprimidas; crimes de pessoas de cor são representativos e devem ser alardeados como advertências sérias. Ele havia notado com surpresa e satisfação que o único lugar no cinema onde os negros estavam em especial evidência era nas prisões. Essa era a única maneira de tornar verdade o que deveria ser verdade, bem como o que era verdade, porém encoberto. Guerra, ódio justificado e desconfiança. Era muito fácil ser enganado por outras raças; pensar no negro como sendo de boa índole; no chinês como simplesmente "queer" ; no japonês como "imitativo". Não. Procure métodos sutis e ideais de morte. Satisfaça-os pelo desprezo total por outras raças. Ensine isso às crianças para que se tornem instintivas. Então eles não se meterão em problemas brincando ingenuamente com crianças de cor, ou mesmo com bonecas, a não ser, é claro, que estejam fardados como criados.
(...)
O linchamento foi um horror contínuo e recorrente na minha época de faculdade: de 1885 a 1894, 1700 negros foram linchados na América. Cada morte foi uma cicatriz em minha alma e me levou a encarar a situação de outros grupos minoritários; pois em meus dias de faculdade os italianos foram linchados em Nova Orleans, forçando o Governo Federal a pagar US$ 25.000 em indenização, e os tumultos antichineses no Ocidente culminaram com a Lei de Exclusão Chinesa de 1892. Alguns ecos da segregação e dos pogroms judeus na Rússia vieram por meio das revistas; acompanhei o caso Dreyfus; e comecei a vislumbrar algo da luta entre Oriente e Ocidente na Guerra Sino-Japonesa.
SUMARIO
Prefácio
[José Itzigsohn / Matheus Gato]
Apologia
I. O Enredo
II. Um Menino da Nova Inglaterra e a Reconstrução
III. A Educação nas Últimas Décadas do Século XIX
IV. Ciência e Império
V. O Conceito de Raça
VI. O Mundo Branco
VII. O Mundo Negro Interior
VIII. A Propaganda e a Guerra Mundial
IX. Revolução
Notas
Índice Remissivo
PALAVRAS-CHAVE
Racismo, sociologia, pan-africanismo, memórias, autobiografia, história dos EUA, anticolonialismo, capitalismo, relações raciais, minorias.
FICHA TÉCNICA
W.E.B. Du Bois
Prefácio: Matheus Gato e José Itzigsohn
Tradução: Projeto Du Bois / coordenação Matheus Gato
Textos de apoio (orelhas): Joaze Bernardino Costa
Impresso
brochura
14 x 19 cm
336 páginas
ISBN 978-65-5505-279-4
300 laudas
lombada 2,1 cm
peso 340 g
Lançamento 25 Abr 2026
EBOOK
ISBN 978-65-5505-280-0
| 1 x de R$89,90 sem juros | Total R$89,90 |
