SOCIEDADE E ECONOMIA
Estruturas e Princípios
Mark Granovetter
Prefácio: Lucas Petroni e Marcos Paulo de Lucca Silveira
Tradução: Newton Cunha
DESCRIÇÃO CURTA
Com uma abordagem interdisciplinar que conecta economia, sociologia e antropologia Sociedade e Economia: Estrutura e Princípios, de Mark Granovetter, explora como fatores sociais, culturais e históricos influenciam a economia e as instituições.
SINOPSE
Sociedade e Economia, de Mark Granovetter, explora a interconexão entre fatores sociais, culturais, históricos e econômicos, destacando como normas, instituições, confiança e poder moldam as interações econômicas. Granovetter adota uma abordagem interdisciplinar, integrando sociologia e economia, e argumenta que a economia não pode ser compreendida isoladamente, pois está profundamente enraizada em redes sociais e contextos culturais.
O autor apresenta três níveis de análise: micro (ação individual), meso (padrões de ação) e macro (instituições econômicas), enfatizando a interconexão entre esses níveis. Ele discute como normas sociais regulam comportamentos, promovem confiança e moldam percepções de justiça e equidade, além de explorar o papel do poder nas relações econômicas, incluindo dependência, legitimidade e controle de recursos.
Granovetter também analisa como as instituições fornecem estabilidade, moldam escolhas e influenciam a organização econômica. A obra combina teoria e exemplos reais, como estudos de caso históricos e contemporâneos, mostrando como a interação entre ação individual e instituições sociais impacta os resultados econômicos. Com essa abordagem, o autor busca oferecer uma perspectiva mais abrangente e rica sobre o funcionamento da economia na sociedade.
QUARTA-CAPA
Ao propor uma matriz conceitual unificada, em contraste com os princípios da economia neoclássica e seus modelos abstratos de livre mercado, o sociólogo Mark Granovetter, talvez o mais influente pensador da nova sociologia econômica – campo de que foi pioneiro – de sua geração, causou uma reviravolta no pensamento social e econômico, por descartar a tese de que os indivíduos operam de maneira puramente racional e isolada e demonstrar as normas morais e a confiança nas relações é que embasam e viabilizam as transações -financeiras. Dessa maneira, o autor constata que a posição estratégica de um ator econômico que atue como mediador dentro de uma rede de conexões é muito mais relevante do que posições hierárquicas nas corporações e nas estruturas estatais.
Prova ainda que bancos, leis e corporações não surgem de forma puramente lógica para aumentar a e¬ ciência, mas são cristalizações de disputas históricas e arranjos sociais contingentes, consolidando a premissa de que a economia, bem ao contrário do que se acreditava, é inerentemente política e moldada pelas manobras e apetites humanos e indissociável da vida social.
MARK GRANOVETTER
Sociólogo estadunidense, professor da Universidade Stanford, conhecido por fundar o campo da sociologia econômica e por seu trabalho sobre a teoria das redes sociais. Nascido em Nova Jersey, em 1943, ele recebeu seu doutorado pela Universidade Harvard, onde foi supervisionado por Harrison White. A primeira grande contribuição de Granovetter foi seu artigo de 1973, "A Força dos Laços Fracos" (The Strength of Weak Ties), que argumentava que conexões sociais fracas são mais vitais do que as fortes para a disseminação de informações e o acesso a novas oportunidades, como empregos. Posteriormente, ele expandiu essa ideia para o argumento da "inserção social", afirmando que o comportamento econômico está profundamente enraizado em relações sociais contínuas, e não apenas em cálculos racionais. Seu artigo de 1985, "Ação Econômica e Estrutura Social: O Problema do Enraizamento" (Economic Action and Social Structure: The Problem of Embeddedness), é um texto fundamental na sociologia econômica. Granovetter também desenvolveu modelos de limiar do comportamento coletivo, explicando como revoltas ou movimentos ganham impulso. Seu livro Getting A Job: A Study of Contacts and Careers (Conseguindo um Emprego: Um Estudo Sobre Contatos e Carreiras, 1974) demonstrou empiricamente como as redes pessoais influenciam os resultados de carreira. Ele continua a pesquisar como as estruturas sociais moldam as economias e as sociedades.
COLEÇÃO ESTUDOS
Coleção que conta atualmente com cerca de quatrocentos títulos de filosofia, psicanálise, crítica, literatura, arquitetura, semiótica, entre outros que já se tornaram clássicos das ciências humanas, e que é voltada para abordagens que aprofundam e ampliam seus temas.
ORELHA
Vista em perspectiva, a obra de Granovetter e da nova sociologia econômica contribuiu para consolidar três proposições teóricas que redefiniram o campo nas últimas décadas. A primeira, tributária da tese segundo a qual a economia abrange mais do que o mercado, sustenta que a ação econômica deve ser compreendida como uma forma particular de ação social: um tipo de conduta orientada por outros atores, por expectativas recíprocas e por estruturas de interação, e não apenas como a maximização isolada de utilidade individual. A segunda, em oposição à visão econômica convencional da vida social, é que a ação econômica é sempre socialmente situada: decisões econômicas são tomadas no interior de redes concretas de relações que moldam o acesso à informação, às oportunidades e às próprias restrições enfrentadas pelos agentes. Isso não implica […] descartar a racionalidade individual como componente da explicação, mas situá-la em seu contexto social efetivo […]. A terceira é que as próprias instituições econômicas devem ser compreendidas como construções sociais contingentes, isto é, como arranjos historicamente formados e sustentados por normas, relações de poder e processos de legitimação, e não como mecanismos naturais ou como soluções funcionalmente esperadas para limitações do mercado.
L. Petroni e M.P.L. Silveira
O QUE DIZ O AUTOR
Bem, o campo da sociologia econômica é o estudo sociológico da economia — entendendo-se por economia, aqui, os processos habituais de produção, distribuição e consumo de bens e serviços, conforme definidos pelas pessoas. A abordagem sociológica consiste em considerar os indivíduos não apenas como maximizadores de sua própria utilidade, mas também como pessoas influenciadas por normas, confiança, poder e instituições sociais. Isso exerceu grande influência na sociologia, pois revitalizou o interesse dos sociólogos pela economia e trouxe contribuições para a própria ciência econômica — embora os economistas tenham demonstrado maior interesse por redes sociais e talvez tenham demorado um pouco mais a prestar atenção em questões como confiança, poder, normas e instituições. No entanto, acredito que esse interesse vem crescendo e que há mais possibilidades de convergência entre as duas disciplinas. Quanto à importância dos laços fracos: se pensarmos nos laços fortes — aquelas pessoas com quem temos grande proximidade —, veremos que elas geralmente também são próximas umas das outras; assim, ao conversar com elas, dificilmente aprenderemos algo que já não tenhamos ouvido de outras pessoas do mesmo círculo. Já os laços fracos nos conectam a redes externas ao nosso próprio círculo, proporcionando informações e ideias que, de outra forma, não obteríamos. Isso se torna uma questão central quando falamos, por exemplo, de como as pessoas encontram novos empregos: é mais provável obter informações sobre vagas através de pessoas com quem temos laços fracos — nossos conhecidos — do que de amigos íntimos, pois, com estes últimos, já compartilhamos praticamente o mesmo conhecimento. Sobre como as pessoas encontram novos empregos: acredito que, ao longo da carreira, elas podem permanecer em um único emprego ou passar por uma sucessão de cargos diferentes. Quem permanece no mesmo emprego durante toda a carreira tende a ter uma rede de contatos mais restrita, pois não faz novos conhecidos com frequência. Por outro lado, quem passa por vários empregos cria uma nova rede a cada mudança; essa rede se expande e, a cada nova transição, novas conexões são incorporadas, gerando uma espécie de efeito "bola de neve" que pode resultar em uma rede de contatos muito ampla.
Quanto a saber se é possível aprender a ampliar sua rede de contatos, essa é uma questão interessante. Existe toda uma indústria de seminários de *networking* que supostamente ensinam as pessoas a melhorar suas redes, mas acho isso um tanto preocupante, pois as pessoas não gostam de ser alvo de "investimento" nesse sentido. Se elas acham que o único motivo pelo qual você quer conhecê-las é para obter algo em troca, elas resistirão a essa aproximação e à formação desse vínculo. Por isso, a ideia de que se pode "investir" na rede para torná-la maior parece-me problemática e com poucas chances de sucesso. Segundo os economistas que estudam o assunto, os laços sociais e as conexões de rede — incluindo os laços fracos — continuam sendo tão importantes quanto sempre foram para que as pessoas encontrem novos empregos. Acredito que a razão seja esta: não importa que tipo de big data, inteligência artificial ou aprendizado de máquina os empregadores utilizem, eles nunca saberão tanto sobre uma pessoa quanto alguém que realmente a conhece, já trabalhou com ela, entende sua personalidade, sabe o que ela faz no tempo livre e como aborda problemas. Portanto, sempre haverá mais conhecimento a ser obtido por meio dos contatos pessoais dos indivíduos do que através de qualquer sistema de informática.
Acredito que os laços e as redes sociais são muito importantes em diversos aspectos da economia. Um exemplo são os grupos empresariais — como os keiretsu no Japão, os chaebol na Coreia ou os grupos econômicos em países de língua espanhola. Trata-se de conjuntos de empresas legalmente independentes, mas interligadas por redes de relacionamento que incluem tanto laços familiares quanto laços fracos. É essa combinação de laços fracos e fortes, formando uma rede complexa, que une essas empresas de maneiras cruciais para as economias em que operam. Os chaebol na Coreia, os keiretsu no Japão e os grupos econômicos em alguns países de língua espanhola realmente dominam suas economias, desempenhando um papel fundamental na relação entre sociedade e economia. Aliás, meu livro chama-se SOCIEDADE E ECONOMIA; inverti o título da obra clássica de Max Weber, Economia e Sociedade, para enfatizar a sociedade. O projeto é composto por dois volumes: o primeiro, publicado em 2017, é mais teórico e aborda a importância de redes, confiança, poder, normas e instituições na economia — elementos todos cruciais. Nele, procuro desenvolver argumentos teóricos acompanhados de exemplos empíricos sobre como tudo isso funciona na prática. O segundo volume trata de casos e aplicações e ainda está em fase de elaboração; estou escrevendo-o agora, concentrado no primeiro capítulo. Esse capítulo inicial analisa em que circunstâncias os relacionamentos pessoais são relevantes na economia. Descobri que existem muitas situações desse tipo e, para minha surpresa, uma variedade de relacionamentos pessoais muito maior do que eu imaginava; por isso, o capítulo acabou sendo bem mais complexo de escrever do que eu previa. Futuramente, haverá também capítulos sobre corrupção, grupos empresariais, governança corporativa e, talvez, um ou dois outros temas...
Fonte: Mark Granovetter (entrevista), BBVA Foundantion, canal do YouTube. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=IMDFajzyYsI&t=7s>. Acesso em: 22 set. 2026.
PÚBLICO-ALVO
Estudantes e profissionais de sociologia, economia, administração, direito, comunicação, ciências políticas, ciências sociais, público em geral.
PALAVRAS-CHAVE
Sociedade, economia, relações sociais, redes sociais, laços fortes e laços fracos, confiança, história, desenvolvimento, recursos humanos, mercado de trabalho, inovação tecnológica.
TRECHOS DO LIVRO
Distingo três níveis de fenômenos econômicos a serem explicados. O primeiro deles é a ação econômica individual. Max Weber define tal ação como ocorrendo quando “a satisfação de uma necessidade depende, no julgamento do ator, de alguns recursos relativamente escassos e de um número limitado de ações possíveis, e se esse estado de coisas evoca reações específicas. Decisivo para tal ação racional é, naturalmente, o fato de que essa escassez seja subjetivamente presumida e a ação orientada para ela”. Tais necessidades, continua Weber, “podem ser de qualquer tipo concebível, desde a alimentação até a edificação religiosa, se houver uma escassez de bens e serviços em relação à procura”. Isso é muito semelhante à definição clássica de economia de Lionel Robbins, retomada na maioria dos livros didáticos elementares atuais, como “a ciência que estuda o comportamento humano como uma relação entre fins e meios escassos que têm usos alternativos”. Esses diferem apenas na insistência de Weber sobre a importância da orientação subjetiva do ator para a situação de meios e fim.
Como normas e valores são conceitos eminentemente mentais que pressupõem a compreensão subjetiva dos indivíduos acerca do sentido e da importância das situações econômicas, na medida em que realmente importam para a economia, métodos e pressupostos puramente behavioristas tornam-se mais difíceis de defender. Mesmo que concordássemos que as normas evoluíram a serviço da eficiência econômica, ainda assim não poderíamos imaginar que elas teriam muito efeito, exceto na medida em que as pessoas acreditassem subjetivamente em sua importância e, portanto, estivessem dispostas a segui-las e aplicá-las contra violações.
Os livros didáticos de economia às vezes passam a impressão de que esses julgamentos desapareceram na economia moderna, porque a oferta e a demanda suplantaram ideias medievais como “preço justo”, mas há muitas evidências do contrário. A economia comportamental produziu dados de pesquisa sobre os tipos de mudanças de preço que as pessoas consideram justas. [...] Assim, os respondentes de pesquisas de opinião expressam resistência, com base em critérios de justiça, a mudanças no preço ou no salário vigentes. Consideram injusto reduzir o salário de alguém em razão de uma demanda frouxa no mercado de trabalho, mas não consideram injusto contratar uma nova pessoa por um salário mais baixo. Assim, os entrevistados da pesquisa expressam resistência, com base numa ideia de justiça, à alteração do preço ou salário prevalecente. As pessoas acham que as empresas têm direito ao seu “lucro de referência” – assim, é possível repassar os aumentos de custos. Mas elas consideram injusto tirar proveito de um aumento no poder de monopólio ou discriminar preços quando possível, e os consumidores podem punir as empresas que consideram injustas, independentemente de ser ou não de seu interesse fazê-lo.
De modo mais geral, o fato de haver inúmeras causas para confiar ou desconfiar de outra pessoa, além de seus interesses, lança dúvidas sobre qualquer argumento de que haja situações em que o comportamento de outra pessoa seja fácil e completamente previsível. Isso não quer dizer que os julgamentos de confiança sejam aleatórios ou não se baseiem, de forma plausível, nas informações disponíveis sobre a probabilidade de outra pessoa ser digna de confiança, nem que novas informações não nos darão razoavelmente mais ou menos confiança nessa probabilidade. De fato, uma das mais importantes intenções de pesquisa a respeito da confiança deve ser entender melhor como as pessoas fazem esses julgamentos e até que ponto eles são precisos. Aqui, quero apenas sugerir cautela em relação a visões excessivamente socializadas da ação humana, que descrevem os outros como agindo de maneiras inteiramente determinadas por fatores que, sem dúvida, entendemos, pois isso desencoraja as investigações detalhadas e sutis do comportamento real de confiança, que são necessárias.
Outro aspecto de quando é apropriado falar de “confiança” diz respeito ao nível da estrutura social em que o termo descreve bem como podemos avaliar o provável comportamento futuro de outras pessoas. Enquanto alguns teóricos propõem que só podemos falar adequadamente de confiança nos casos em que as pessoas se conhecem bem, outros sugerem exatamente o contrário – que o conceito é útil quase que inteiramente em relação a como lidamos com estranhos. Em particular, argumento contra ambas as proposições e contra a restrição da ideia de “confiança” entendida nos dois casos.
Agora, para dizer um pouco mais sobre esse quadro abrangente: indivíduos que exercem poder com base na dependência (controle de recursos que outros consideram críticos), na autoridade legítima ou no controle da agenda muitas vezes parecem, àquele sob sua influência, possuir habilidades e eficácia singulares, como, de fato, podem possuir. Mas se nos afastarmos da situação imediata, podemos perceber que as circunstâncias históricas, políticas e econômicas desempenharam um papel desproporcional ao colocar esses indivíduos, por mais qualificados que sejam, em uma posição de exercer o seu poder.
Mais comumente, as esferas institucionais estão interligadas, e os atores não são infinitamente inteligentes para imaginar soluções abstratas, mas gravitam em torno de padrões conhecidos de outras áreas de suas vidas. Portanto, a inovação e a invenção raramente surgem do novo, mas são construídas com materiais que já existem, assim como a evolução biológica não cria formas que usam blocos construtivos totalmente novos; variação, seleção e retenção – o mantra da evolução biológica – implicam a seleção entre variações já existentes, que fornecem uma base substancial de recursos, se bem que dificilmente ilimitada, para o surgimento de novas formas.
SUMARIO
Apresentação – Mark Granovetter In Media Res [Lucas Petroni e Marcos Paulo de Lucca Silveira]
1. Introdução: Problemas de Explicação em Sociologia Econômica
2. O Impacto das Construções Mentais na Ação Econômica: Normas, Valores e Economia Moral
3. Confiança na Economia
4. Poder na Economia
5. Economia e Instituições Sociais
6. A Interação Entre a Ação Individual e as Instituições Sociais
Notas
Referências
Índice
Agradecimentos
FICHA TÉCNICA
Mark Granovetter
Prefácio: Lucas Petroni e Marcos Paulo de Lucca Silveira
Tradução: Newton Cunha
Coleção Estudos [E391]
Assunto: Economia, sociologia, sociedade, redes sociais, desenvolvimento, Max Weber
Coedição Editora Perspectiva e Fundação José Luiz Setúbal
IMPRESSO
brochura
13,5 x 22,5 cm
312 páginas
ISBN 978-65-5505-229-9
Lançamento 30 out
EBOOK
ISBN 978-65-5505-275-6
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