UM BRASILEIRO EM ISRAEL
A Vida e as Contradições no País Que Escolhi Para Viver
João Koatz Miragaya
Prefácio: Michel Gherman
DESCRIÇÃO CURTA
Um Brasileiro em Israel apresenta um panorama da história da Palestina e de Israel, das guerras e da situação atual, amplamente explicitada pelo olhar personalíssimo do autor, um historiador e professor que emigrou para Israel.
SINOPSE
A visão de João Koatz Miragaya, historiador, professor e analista, em Um Brasileiro em Israel, sobre a relação Israel-Palestina é marcada por uma postura crítica, autocrítica e profundamente humanista, que recusa tanto a propaganda oficial israelense quanto a demonização absoluta de Israel ou dos palestinos. O autor se define como um "cidadão israelense pró-Palestina", mantendo sua identidade sionista de esquerda, mas defendendo de forma clara o direito dos palestinos à autodeterminação nacional e à criação de um Estado próprio.
Suas observações sobre a transformação do ambiente político israelense, com avanço de extremos e controle autoritário, destacam a violação dos direitos palestinos e a erosão de conquistas anteriores, evidenciando uma crise democrática.
O que fica mais evidente é a coragem do autor em expor suas dúvidas, contradições e críticas, recusando simplificações e enfrentando temas polêmicos de forma honesta e fundamentada. O livro é um testemunho valioso sobre a complexidade de Israel, visto por dentro e por fora, e sobre o desafio de manter uma postura individual ética, crítica e aberta ao diálogo em tempos de polarização e crise. Essa abordagem faz da obra uma referência importante para quem deseja compreender Israel além dos clichês, a partir de uma perspectiva pessoal, histórica e política profundamente engajada.
Miragaya é conhecido no Brasil por ser coeditor e coapresentador do podcast O Lado Esquerdo do Muro.
QUARTA-CAPA
No dia 15 de julho de 2009, um voo direto da El Al que saíra de São Paulo no dia anterior, aterrissava no aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv. Era um voo quase exclusivo para jovens imigrantes de diversos países da América do Sul […], entre os quais eu, com 24 anos, vestindo uma camisa do Vasco. Talvez isso tenha algo a dizer sobre meu apego ao Brasil, apesar da decisão de viver em Israel.
[…]
Se até há pouco tínhamos a confiança de que era possível sonhar com um futuro melhor, […] hoje paira sobre nós o temor de que não há mais tempo a perder. […] Caso o governo exerça o controle total sobre a polícia, o judiciário, o Shin Bet e o exército, não haverá eleição que evite a catástrofe. Em dezesseis anos, jamais imaginei ver este país entrando em colapso de forma tão abrupta. A democracia israelense jamais foi plena – até 1966, havia cidadãos árabes vivendo sob regime militar e desde 1967 há uma ocupação cruel e criminosa contra os palestinos, que internamente se sustentava de uma forma ou de outra. Tudo de positivo que o movimento sionista construiu vem sendo esmagado, enquanto se multiplica tudo o que é feito de ruim em nome do sionismo. Vivenciamos o momento mais trágico da curta história do Estado de Israel.
JOÃO KOATZ MIRAGAYA
Carioca de nascimento e galileu por escolha, constrói sua trajetória profissional e intelectual na intersecção entre a pesquisa acadêmica, a docência e o diálogo intercultural. Historiador formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre pela Universidade de Tel Aviv, dedicou grande parte de sua vida profissional e voluntária à área de educação não formal. Sua atuação é marcada pela liderança e direção de movimentos juvenis e pela mediação de grupos de diálogo formados por jovens judeus e árabes em Israel, país onde também leciona regularmente na rede de ensino. No campo da comunicação e da análise de conjuntura política e social do Oriente Médio, foi um dos criadores, autores e editor do antigo site Conexão Israel, atua como assessor e produtor de conteúdo para o Instituto Brasil-Israel (IBI) e é coapresentador do projeto Do Lado Esquerdo do Muro.
COLEÇÃO PARALELOS
A coleção Paralelos, que já lançou textos de Hilda Hilst e Zulmira Ribeiro Tavares, é voltada a romances e contos, alguns já consagrados em seu país de origem, como o humorístico A Baleia Mareada, de Efraim Kishon, outros de autores renomados, como Mosché Schamir (Rei de Carne e Osso), Aharon Appelfeld (Expedição ao Inverno) ou os prêmio Nobel Sch. I. Agnon (Contos de Amor) e Isaac Bashevis Singer (O Golem), além de também abrir espaço a novos autores como Ili Gorlizki (Tehiru) e Sonia Azevedo (Odete Inventa o Mar);
DA CAPA
Imagem da capa: linhas de força representam os fluxos imigratórios de judeus para Israel desenhando o mapa do país, invertido nessa representação como um sinal de urgência por uma nova visão do Estado que seja inclusiva em relação aos cidadãos não judias e que trabalhe por uma solução negociada definitiva para a questão palestina.
ORELHA {do Prefácio de Michel Gherman}
Em tempos de polarização intensa, em um momento no qual definições complexas não são bem-vindas, João não pede licença, não teme contradições e dúvidas e constitui-se como um analista complexo para uma realidade complexa.
Isso torna este livro uma obra necessária em tempos de simplificações e obviedades.
[...]
Considero importante notar que a formação profissional de João Miragaya questiona um dos elementos centrais das análises comuns sobre Israel: a de que a situação é tão específica e especial que qualquer dinâmica comparativa está fadada ao fracasso. Nesse contexto, o autor trata as definições de singularidade de Israel (e da Palestina) como decisões ideológicas.
A noção de “país singular” seria, nesse sentido, compartilhada por todas as sociedades e todos os países no mundo. Nesse contexto, João desmonta, a partir das definições de “comunidades imaginadas” de Benedict Anderson, as lógicas essencialistas que justificam atitudes e ações dos governos de Israel e que acompanham análises não críticas e de propaganda sionista mundo afora.
[...]
Politicamente, o governo de extrema-direita de Israel produz discursos genocidários e de promoção de um confronto militar que não parece ter fim, patrocinado por um governo que investe na eternização da guerra. Externamente, os resultados são a exportação do discurso pró-palestino para os campi universitários e para as ruas de várias cidades do mundo e, como consequência, a instrumentalização do antissemitismo, principalmente a partir da eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, que criminalizou posicionamentos e protestos, utilizando-os para impor maior censura e controle sobre as universidades estadunidenses.
PÚBLICO-ALVO
Público em geral, interessados em ciências sociais, geopolítica e relações internacionais, interessados nas questões envolvendo o Oriente Médio.
PALAVRAS-CHAVE
Israel, Palestina, guerra, relações internacionais, Holocausto, Gaza, sionismo, esquerda, judaísmo, pedagogia da autonomia, educação, imigrantes, pedagogia, conflito árabo-israelense, educação, imigração, Oriente Médio, história, acordos de paz, apartheid.
TRECHOS DO LIVRO
Eu me indignava com a ocupação dos territórios palestinos, e combatê-la era uma das minhas motivações de vida [...] Tudo isso viria me assombrar com o passar do tempo, provocando crises, dúvidas e incertezas, algumas das quais permanecem.
Nos ambientes comunitários de que participava, eu me sentia seguro para chamar a atenção para a questão palestina, para o sofrimento de um outro povo, oprimido por nós, sionistas, e pela urgente necessidade de dar fim à ocupação. Logicamente, eu era criticado e atacado pelos grupos mais conservadores, algo que não me inibia. No contexto universitário, contudo, eu me via em situação mais vulnerável. Ao ter meus direitos, sendo parte de um povo, questionados ou até negados, me via em uma situação defensiva, e a identificação com os direitos palestinos era obliterada naquela figuração.
Atualmente, está cada vez mais difícil restabelecer canais de comunicação com palestinos; há muita desconfiança dos movimentos pacifistas e dos diálogos. Vivenciei muitas situações nas quais palestinos, com reuniões marcadas conosco e com permissão para entrar em Israel, foram barrados em checkpoints. Há quem ainda insista, apesar de a extrema-direita trabalhar arduamente para intimidá-los, mas houve uma diminuição significativa dessas ações nos últimos dez anos.
A partir da minha chegada a Israel, comecei uma vida de mudanças, sem residir mais do que três anos na mesma casa, além de ter mudado de cidade espantosas sete vezes desde 2009.
Em 2024, ingressei como educador em uma organização que promove o diálogo entre crianças e adolescentes judeus e árabes em Israel, um dos trabalhos mais significativos que já fiz. Além, obviamente, dos excelentes resultados alcançados pela organização, tive finalmente a oportunidade de conhecer mais de perto as comunidades árabes de Israel. Primeiro, pelas crianças e adolescentes, que são bastante receptivos, questionadores e têm bem menos filtro que os adultos. Depois, pelo contato com a equipe de trabalho, com quem pude, finalmente, estabelecer conversas mais profundas e relações reais de amizade. Obviamente, falo de um grupo bem específico, de educadores de um programa em que todos são adeptos do diálogo e da coexistência, e não será deles que escutarei as posições mais radicais. Por outro lado, os alunos (judeus ou árabes), que muitas vezes não se esquivam de trazer uma visão mais extremista, abrindo a possibilidade de juntos avaliarmos como trabalhar essas questões. Eu asseguro que aprendo mais com essa convivência do que contribuo para o programa. Graças a esse trabalho, comecei a estudar árabe (apanho bastante), e sinto que vou superando cada vez mais os estereótipos e meus próprios preconceitos. Com todas as voltas que a vida dá, aqui estou novamente sendo educado, promovendo e participando do diálogo como se também fosse um aluno. Nada mais natural.
Foram necessários alguns anos e uma humildade que os jovens sonhadores não têm, até que eu me desse conta de que aquilo tudo que eu sabia era totalmente superficial, e os processos em curso que transformavam a sociedade passavam por baixo do meu radar. Pior que isso: quanto mais a realidade se apresentava, mais eu entrava em negação. O choque entre meus planos megalomaníacos e a minha realidade de imigrante se mostrava claro o suficiente para que eu pelo menos compreendesse que agora não era o momento. Esse agora foi, de fato, se tornando permanente, o que me forçou a refletir sobre a minha vida, minhas realizações até então, e minhas parcerias.
Por nos solidarizarmos com os palestinos e os tratarmos com um pingo de humanidade, nos tornamos traidores [...] Há dez anos, o uso do termo schalom (paz) é visto de forma negativa em campanhas políticas e discursos públicos. Quem fala em processo de paz ou é ingênuo ou está do lado dos inimigos árabes.
A educação para a tolerância, a coexistência, a empatia e a igualdade é um caminho. Grupos de diálogo, a formação de organizações de trabalhadores, a criação de espaços de convivência conjunta, todas essas medidas são fundamentais para que possamos quebrar o gelo, conhecer o outro e humanizá-lo.
SUMARIO
PREFÁCIO Um Livro Fundamental em Tempos Difíceis [por Michel Gherman]
1 Motivação e Realidade
2 Recruta Zero
3 Vivendo em um País em Conflito
4 Um Sacerdote Ateu
5 Judeu Errante em Israel
6 Pedagogia da Autonomia em Israel
7 Tudo em Família: Os Primos
8 Falando de um Troço Chato
9 Do Lado Esquerdo do Muro
EPÍLOGO
Glossário
Notas
Agradecimentos
FICHA TÉCNICA
João Koatz Miragaya
Prefácio: Michel Gherman
Paralelos
Impresso em brochura
14 x 21 cm
168 páginas
ISBN 978-65-5505-316-6
Lançamento 6 nov
EBOOK
ISBN 978-65-5505-317-3
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